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(Aprox. 341 a.C.  270 a.C.)

EPICURO

(Aprox. 341 a.C.   270 a.C.)

 

A história tem caprichos estranhos, e um dos mais estranhos, por certo, foi o da ligação entre Aristóteles e Alexandre. Durante três anos o filósofo procurou educar o guerreiro, iniciá-lo nos segredos da sabedoria, e este, como um potro selvagem, manteve intacta a sua liberdade. Dos treze anos aos dezesseis, na fase mais rebelde da vida, quando o adolescente enfrenta o problema de conquistar-se a si mesmo, Alexandre sofreu o assédio do filósofo. Mas nem por isso passou a odiá-lo. Aristóteles parece ter compreendido bem a inutilidade da sua tarefa, convertendo-a logo num processo diferente, talvez de discussões amigáveis sobre os problemas da vida e do mundo. Somente assim se compreende a estima que perdurou entre ambos, o mútuo respeito que permitiu a Aristóteles realizar a sua obra enquanto Alexandre cuidava da expansão do reino.

Mas o curioso nesse episódio é que cada um deles tinha um papel bem nítido a desempenhar no inventário gigantesco da civilização grega. A Aristóteles cabia formular a síntese formidável da filosofia helênica para nela salvar, como numa arca diluviana, o mundo em naufrágio. A Alexandre cabia o apostolado civilizador, a disseminação da forma grega de vida e, portanto, da cultura grega pelo mundo antigo, abatendo os impérios bárbaros. Na Mesopotâmia, na Pérsia, na Síria, no Egito, na Índia, por toda parte Alexandre semeou os gérmens de uma vida nova que se irradiava das instituições gregas, paradoxalmente destruídas por seu pai Filipe e por ele mesmo. A polis grega, que morrera com o domínio macedônico, multiplicou-se com Alexandre nas áreas imensas das suas conquistas. O que vale dizer que a Grécia vencida, antes de conquistar Roma, conquistara a Macedônia.

Em sentido inverso, porém, o domínio macedônico representou uma verdadeira subjugação do espírito grego. Aristóteles sustentou a ideia da Cidade-Estado e ainda pôde sonhar com uma política urbana, no estilo grego, no mesmo instante em que seu discípulo Alexandre substituía o sistema urbano pelo imperial. Mas Aristóteles foi o último representante do pensamento grego, o seu remate final. Depois dele, o mundo submerso pelo poder macedônico transformou-se num caos em que as influências helênicas se diluíam nas mais estranhas misturas com os costumes e as superstições bárbaras. O poder, que Platão sonhara entregar nas mãos dos sábios, da alma racional, caíra violentamente nas mãos dos ambiciosos, de alma concupiscente.

De certa maneira, o fato de Aristóteles não ter conseguido impor-se a Alexandre representa o predomínio das partes inferiores da alma no mundo de então. Aristóteles era a cabeça, a alma racional; Alexandre era o coração e as vísceras, o ardor e a concupiscência. Vencendo Alexandre a cabeça, limitou-se a irradiar em silêncio as suas ideias que elaboraram no ostracismo as novas formas dos velhos sonhos doirados da política platônica.

Nesse mundo em transição, a filosofia não conseguiu manter as suas antigas posições. Deixou de lado as indagações supremas e as pretensões sociais para se refugiar na última furna que lhe sobrava: a do individualismo grego. Os sistemas helenísticos de filosofia, que mais parecem esquemas escolares diante dos grandiosos sistemas gregos, atestam a aridez mental do tempo.                        

Nenhuma figura simboliza melhor essa transformação do que a de Diógenes, o Cínico, discípulo de Antístenes. Diógenes abandonou a polis pelo tonel. Deixou a sociedade pela furna individual. E hoje sabemos que não foi propriamente um tonel, mas um vaso funerário, um enorme cântaro o seu estranho refúgio. Nada exemplifica melhor a situação: a filosofia se refugiava no túmulo.

Certa vez, Alexandre aproximou-se do filósofo e perguntou-lhe se desejava alguma coisa. Alexandre era o senhor do tempo, suas mãos poderiam transformar o cântaro de Diógenes num liceu aristotélico. Mas o filósofo, comosabemos, pediu-lhe apenas que não lhe tirasse o que não lhe podia dar: a luz do sol, que Alexandre interceptava.

O cinismo de Diógenes não se assemelhava em nada ao que hoje conhecemos por essa palavra. Muito pelo contrário: cínico quer dizer simplesmente canino, e Diógenes era cínico porque resolvera viver como um cão. Ele aprendera com Antístenes a desprezar a fatuidade humana. E se colocava assim, em frente ao poder de Alexandre, como um símbolo da revolta da alma racional contra o predomínio do apetite. Com Diógenes surgia a primeira forma de filosofia helenística, o cinismo, já sistematizado por Antístenes, que fora discípulo dos sofistas e de Sócrates, mas somente com Diógenes se projetando ao mundo. Um discípulo deste, Teles, tornou-se famoso pelas suas peregrinações, discursando de vila em vila com seu manto curto e seu bordão de mendigo.

Zeller considera os cínicos "os capuchinhos da Antiguidade". Mas dos cínicos vão surgir os céticos, com um dos componentes do exército de Alexandre na invasão das Índias, que se torna o sistematizador da nova doutrina: Pirro, de Elis. Parece que nada escreveu, mas predicou bastante, ensinando que nada vale nada e que o homem deve conformar-se com todas as situações. Por outro lado, nada é cognoscível e a sabedoria está em se saber que nada se sabe nem se poderá saber. O importante, pois, era simplesmente viver.

Destas teorias do desencanto vão surgir as duas formas mais importantes da filosofia da época helenística: a do estoicismo, com Zenão de Cítio, discípulo do cínico Crates, de Atenas, e a do epicurismo, com Epicuro, uma das figuras mais notáveis de toda a história da filosofia. Podemos dizer que Epicuro, senão por sua doutrina, pelo menos por sua personalidade e por sua vida, salva o desencanto e a desolação dessa fase crepuscular da filosofia antiga.

Zenão instalou sua escola no Pórtico das Pinturas, a Stoa Poikilé; e da palavra Stoa derivou-se o nome da doutrina. Léon Robin entende que nesse tempo, cerca do ano 300 a.C., já Epicuro ensinava no seu jardim. Como vemos, a filosofia, graças aos processos de limitação e acomodação do cinismo e do ceticismo, conseguira sair da fuma, para de novo se enfeitar nos pórticos e nos jardins. Mas não era mais do que uma jovem plebeia e bastarda, que procurava em vão lembrar a sua linhagem nobre. Veremos, com Epicuro, quanto o seu pobre jardim particular difere das alamedas aristotélicas do Liceu e do jardim público de Academus, em que floresceu o Platonismo.

 

OS FILÓSOFOS DO JARDIM

 

Tratamos da linhagem socrática da filosofia grega e pudemos mostrar a sua sequência coerente, o seu desenvolvimento harmônico. Existe também uma linhagem democrítica, mas sem a coerência nem o desenvolvimento daquela. Demócrito não teve um Platão e um Aristóteles para prosseguir o seu trabalho, e só muito mais tarde, depois de já encerrado o ciclo do pensamento grego, surgiu o seu continuador: Epicuro. Mas este não era um filho nem um herdeiro direto do seu espírito. Era antes um beneficiário estranho e ingrato, que negou a sua origem e criticou Demócrito.

De qualquer maneira, porém, foi ele quem assegurou a existência de uma linha democrítica de pensamento, linha que vai firmar-se em Roma com Lucrécio, e na época moderna com Pierre Gassend, na França do século XVII. Significativo o fato de Gassend ter sido não apenas filósofo, mas também físico. Ele aparece, assim, como perfeito traço da união entre Demócrito e o atomismo atual, senão de maneira efetiva, pelo menos em sentido simbólico. A Demócrito estava reservado mais do que um desenvolvimento filosófico: uma confirmação científica.

Epicuro, entretanto, aparece na linhagem democrítica de maneira estranha. Reunindo em sua doutrina as contribuições fundamentais do atomismo abderita e do hedonismo cirenaico, pende mais para este, afastando-se da orientação científica. Sua escola de Atenas parecia-se mais com um convento religioso, uma comunidade órfica, de tipo pitagórico, do que um instituto de ensino pós-aristotélico.

Numa época em que a influência de Aristóteles se fazia sentir na orientação científica dos estudos, Epicuro, herdeiro de Demócrito, refugiava-se no Hedonismo, forjando a sua ética individualista. Mas essa atitude correspondia melhor aos sentimentos de incerteza e descrença do povo, e muitos foram os interessados no seu ensino. Os discípulos de Epicuro tornaram-se os filósofos do jardim. E a sua filosofia realmente floresceu, espalhando-se facilmente, como uma doutrina moral em que os homens encontravam forças para enfrentar a aridez da época.

Epicuro nasceu em Samos, cerca de 341 a.C. Na ilha pitagórica, começou bem cedo a interessar-se pela filosofia. Ainda na adolescência, foi discípulo de Pânfilo, platônico, do qual não gostou. Logo mais, seus pais deixaram Samos, dirigindo-se a Teos, na Ásia Menor. Epicuro, que se encontrava em Atenas, foi reunir-se à família. Parece que então recebeu as primeiras lições de Nausífanes, discípulo de Demócrito, que lhe transmitiu os segredos da constituição atômica do universo.

A seguir, a família se transfere para Cólofon, e Epicuro se entrega então à meditação própria, ansioso por construir a sua doutrina autônoma. Tem a cabeça ardendo com os princípios do platonismo e os ouvidos zumbindo com o rumor dos átomos de Demócrito. Mas não quer submeter-se a nenhuma dessas forças que o disputam. Há de ser ele mesmo a descobrir a sua própria verdade. Mas além de Platão e Demócrito, outra influência bastante perigosa já se infiltrara em sua mente: a de Pirro, através do próprio Nausífanes. Em Atenas, embora numa passagem rápida, ouvira também Xenócrates, segundo entende Léon Robin.

Entre os dezoito e os vinte anos — tendo se iniciado na filosofia aos quatorze — Epicuro é um jovem ambicioso e sonhador, que se dispõe a enfrentar o oceano da sabedoria com os seus próprios braços e se nega a conhecer que já tem amarrados a esses e às pernas os salva-vidas do platonismo, do atomismo e do próprio cinismo, dos quais jamais se libertará.

Em 310 a.C., já homem feito, Epicuro, que de acordo com esses dados levara dez anos elaborando a sua doutrina, apresenta-se em Mitilene como professor de filosofia e dali passa para Lâmpsaco, conquistando verdadeiro êxito com os seus ensinos. Nessa cidade da Mísia conquista os seus discípulos e amigos mais leais, Metrodoro, Polieno e Hemarco, que o seguem para Atenas, quando em 306 a.C. resolveu mudar para lá a sua escola.

Foi então que adquiriu, por oito minas, um jardim, ao que parece distante de sua casa, para instalar o seu instituto. Esse fato basta para provar o êxito de epicuro em Lâmpsaco, pois já estava em condições, não só de mudar-se para Atenas, como também de instalar-se com seus próprios recursos. Curioso notar-se que o pai do filósofo era um mestre-escola, e a mãe uma exorcista, ou seja uma curandeira. O próprio Epicuro foi também mestre-escola, como se depreende deste epigrama agressivo de Témon, recolhido por Laércio:

De Samos saiu

O último físico, o imprudente,

O mestre-escola,

O mais duro e brutal entre os mortais.

Como se vê, Epicuro iniciou sua carreira de filósofo sob a zombaria e a crítica de adversários impiedosos. Sua posição histórica, aliás, é das mais curiosas. De um lado, atiraram-lhe as mais tremendas acusações. De outro, louvam-no como a um deus. Diógenes Laércio enfileira ao mesmo tempo as duas coisas: uma série de acusações brutais, em que Epicuro aparece como um depravado, uma criatura indigna, e uma série de louvores que o elevam aos céus. O fato, porém, de haver Epicuro vivido até a morte cercado por amigos, discípulos e parentes que o amavam basta para mostrar a falsidade das acusações.

 

O próprio Laércio, que viveu no século III a.C. diz que os acusadores de Epicuro “certamente deliravam”, e acrescenta: “[…] pois são muitos os que atestam a equanimidade desse varão invicto”. Lembra que a pátria o honrou com estátuas de bronze; que seus amigos eram tantos que “[…] já não cabiam nas cidades”; que a sucessão de sua escola não sofreu interrupções, como as outras; que foi o grande amigo dos pais, dos irmãos e dos próprios escravos, chegando mesmo a ensinar filosofia a estes.

 

O certo é que o mestre-escola de Samos chegou a conquistar a Grécia e o mundo. Tornou-se famoso por seu caráter amável, sua bondade, seu interesse constante pelos amigos, de que dá testemunho o seu próprio testamento, sua vida simples e frugal no jardim em que ensinava. Parece que as tremendas acusações que lhe faziam derivam de intrigas e chicanas filosóficas, particularmente dos seus adversários estóicos. Acusavam-no por receber em seu jardim os amigos com toda a família e também algumas cortesãs.

 

As cartas que escrevia aos jovens e às mulheres com espontaneidade, sem a rigidez e a reserva dos mestres escandalizavam ou serviam de escândalo aos inimigos. Acusavam-no ao mesmo tempo de gulodice e sensualismo, desregramentos de toda espécie e “[…] físico de constituição tão miserável, que por muitos anos não pode levantar-se da cadeira”. A contradição é evidente, tanto mais quando se sabe que Epicuro deixou nada menos de trezentos livros, tarefa gigantesca que jamais poderia ter realizado, se fosse um desregrado ou enfermo, como o pintavam.

Entre os filósofos do jardim aparecem os nomes de várias cortesãs: Marmaria, Hédia, Erócia, Nicídia. Parece que Epicuro foi o primeiro filósofo a não fazer distinções entre os que o procuravam para o aprendizado da filosofia. Como a esse fato inusitado se juntava o sentido hedonista, sempre mal compreendido, da sua filosofia, não foi difícil imaginar-se e propagar-se uma série de fábulas a seu respeito. Por outro lado, sua atitude para com os mestres contemporâneos ou do passado contrastava enormemente com sua afabilidade pessoal para com todos. Não somente repelia qualquer referência a mestres que pudesse ter tido, afirmando sempre que aprendera por si mesmo, como não poupava apodos a Nausífanes, a Demócrito, a Platão e a Aristóteles.

Ao que parece havia em seu espírito uma curiosa falha, que o incapacitava às relações com pessoas iguais ou superiores. Talvez uma decorrência da sua falta de preparo, pois é evidente que não teve uma formação filosófica suficiente e mostrou-se irredutível na condenação à ciência desinteressada, que considerava inútil.

Windelband comenta: “[…] A deficiência da preparação científica de Epicuro põe-se de manifesto na insegurança da sua maneira de expressar-se e no escasso rigor da sua argumentação, fazendo-se patente também no seu desprezo por toda atividade meramente teórica”. Dessa atitude agressiva devem também decorrer as reações mais diversas, dos próprios filósofos agredidos ou de seus discípulos e amigos, pois nada pior do que as querelas entre filósofos, na Antiguidade, como agora.

Os filósofos do jardim foram assim colocados na posição dos existencialistas modernos. epicurismo, como existencialismo em nossos dias, passou a ter a significação popular de devassidão. Epicuro tornou-se o pregador da sensualidade, do prazer dos sentidos. O jardim dos ensinamentos filosóficos apareceu como um antro de perdição, de “filosofia noturna e secreto conventículo”, como o chamou Timócrates, irmão de Metrodoro.

Entretanto, Epicuro pregava a ataraxia, a busca do equilíbrio, da serenidade, da paz íntima, a fuga a todos os excessos que perturbam o homem e o levam ao desespero. Ensinou filosofia a seus três irmãos: Néocles, Cheredeno e Aristóbulo, e a seu escravo Mus, “o tão celebrado”, como a ele se refere Laércio. Outros escravos também aprenderam com Epicuro, que a todos ensinava, sem distinção, a sua filosofia de vida. E basta conhecermos, mesmo em traços gerais, essa filosofia, para vermos que os seus acusadores faltaram com a verdade.

         O Epicurismo revelou, mesmo depois da morte do filósofo, uma espantosa vitalidade. Ramificou-se por várias regiões e foi a primeira filosofia helenística a penetrar em Roma, conquistando adeptos ilustres, como Manílio Torquato, Pompônio Ático e o poeta Lucrécio. Foi numa vila da cidade soterrada de Herculano que se encontrou a primeira biblioteca epicuriana, atestando a profunda penetração da doutrina em Roma. Léon Robin nos informa que o epicurismo conservou a sua vitalidade até princípios do quarto século da nossa era. E acrescenta: “No terceiro, a refutação da física por Denis, bispo de Alexandria, e os rudes ataques de Lactâncio, atestam que ele foi para o Cristianismo um temível rival. E não o deixará de ser, até que os cristãos tenham em mãos o poder político”.

Vai aqui, por certo, uma acusação de violência cristã contra o epicurismo, o que não deve estranhar, pois a história nos mostra quanto o fanatismo dos fins do terceiro século em diante se voltou contra as doutrinas chamadas pagãs, anulando-as por todos os meios possíveis. Epicuro tinha ainda de enfrentar essa nova luta, na qual, evidentemente, não lhe restava perspectiva de vitória. Apesar disso, vemos surgir na França do século dezessete o epicurista Gassend, espécie de fruto temporão do malsinado Jardim de Epicuro, onde escravos e mulheres da vida aprendiam filosofia, antecipando a revolução social dos primeiros cenáculos cristãos.

 

A ATARAXIA

 

Há realmente uma curiosa semelhança entre o epicurismo e o cristianismo, não obstante as profundas diferenças que assinalam seus pontos essenciais. Epicuro desdenha a ciência do tempo, a estúpida sabedoria das escolas filosóficas e o dogmatismo das religiões para ensinar a única ciência verdadeira: a salvação da alma. Só isso importa, e tudo o mais é estultice. Eis um dos principais motivos das tremendas reações que o seu ensino provocou. Epicuro não reconhece as discriminações raciais e sociais: seu escravo Mus se transforma em filósofo, e as mulheres da vida procuram o Jardim não para os prazeres fáceis, mas para a libertação da alma.

Epicuro pregava o prazer, como suprema finalidade da vida. Jesus ensinava o sacrifício. Nisto parece que se contraditavam. Mas parece, apenas, pois na verdade o ensino é o mesmo, pelo menos formalmente: Jesus ensinava o sacrifício como caminho da bem-aventurança, e Epicuro ensinava que o prazer só é possível com sacrifício das ilusões e enganos da vida. A diferença essencial é que, para Jesus, a bem-aventurança, o supremo prazer, está na outra vida, enquanto para Epicuro a outra vida não existe, e o prazer supremo deve e pode ser desfrutado aqui mesmo. Para Jesus, o homem é um deus em potencial, que pode realizar a sua natureza divina no além; para Epicuro, o homem é um deus cuja atualidade pode e deve realizar-se nesta vida, pois depois desta não haverá mais tempo nem possibilidade alguma. 

O suposto materialismo de Demócrito vai encontrar em Epicuro a sua verdadeira forma. Somente nele o atomismo adquire, de fato, o sentido materialista que se atribui ao Democritismo. E epicuro, filósofo de uma época de decadência e desencanto, de um desses momentos de transição por que passa o mundo de tempos em tempos, apresenta-se, assim, como o modelo grego dos mais coerentes materialistas modernos. Nisso, o seu parentesco filosófico mais estreito é antes com Protágoras do que com Demócrito.

A salvação da alma está no prazer. O fim da vida é o prazer. O único objetivo do homem, portanto, deve ser o prazer. As ciências e as religiões de nada servem, se não nos levam ao prazer. Tudo é fútil e tolo, quando não abre possibilidades ao prazer. De que valem as ciências de Aristóteles, as indagações dos fisiólogos, as idéias de Platão, os artifícios da matemática se não nos derem a única coisa de que necessitamos, a única que realmente nos interessa, e que é o prazer?

Esse hedonismo agudo, absolutista, absorvente, proclamado sem peias pelo filósofo do jardim, provocou escândalos, levantou reações, despertou mal-entendidos e sugeriu as mais torpes calúnias. Diotimo Estóico, segundo afirma Laércio, publicou com o nome de Epicuro cinquenta cartas “impudicas e escandalosas”, e Timócrates chegou a escrever que epicuro “vomitava duas vezes por dia, por excesso de luxo e de indolência.”

A doutrina de ataraxia, porém, é a mais perfeita refutação de todas essas calúnias. Ponto central da filosofia epicurista, essa palavra resume o pensamento do filósofo. Ataraxia quer dizer ausência de perturbação, serenidade de espírito, equilíbrio. A palavra pode ser decomposta assim: a = privação, e taráxis = agitação. Ataraxia, portanto, equivale a não-agitação. Pois bem: o supremo prazer da serenidade. Vimos que Demócrito em sua ética atômica falava do ideal espiritual como de um mar tranquilo. Esse ideal é retomado por Epicuro, que lhe dá a maior ênfase possível.

O objetivo do homem sensato ou sábio é a ataraxia. E todo o esforço da filosofia só pode ser dirigido nesse sentido. Epicuro se torna, assim, o filósofo da invulnerabilidade. Não lhe interessa a imortalidade, mas a conquista de uma condição humana em que o homem se torna invulnerável. O mesmo ideal dos estóicos, e em geral o sonho e o anseio de todos em meio às incertezas e angústias de uma época de transição, em que todos os antigos valores haviam ruído e os novos ainda não estavam construídos.

As várias partes da filosofia que haviam adquirido importância crescente nos sistemas anteriores perdem o seu interesse na doutrina de Epicuro. Para esta, só a ética é importante. O esquema epicurista se reduz ao mínimo. A filosofia se compõe apenas de três partes: a física, a canônica (ou lógica) e a ética. Mas a física e a canônica só interessam como fundamentos da ética, e somente na medida em que podem servir para isso.

Nunca se viu, por certo, mais agudo individualismo nem mais cerrado utilitarismo. O fim de tudo é o homem e o bem-estar do homem. Nem mesmo o utilitarismo de Jeremias Bentham, no século dezenove, consegue atingir tamanha saturação. Entretanto, não se pode falar de egoísmo. Epicuro não desejava salvar-se em detrimento dos outros, mas levar a salvação a todos. Queria dar à espécie humana a invulnerabilidade que ele ainda não soubera conquistar diante dos tumultos do mundo.

“Nunca é cedo nem tarde demais para tratar da santidade da alma”, dizia o filósofo. A invulnerabilidade é portanto a santidade. É um estado de purificação, em que a alma, despojada das ilusões e das falsas atrações do mundo, sente-se tranquila como um mar calmo. Mas para chegar à santidade é preciso sabedoria. Se o homem não sabe o que é real e o que é falso, não pode ser feliz. Nada de excessos, porém, pois mesmo no terreno da sabedoria há muito engano ledo. O homem precisa apenas do saber necessário a garantir o seu equilíbrio. E para isso bastam a física e a canônica. Porque a primeira lhe dá o conhecimento das coisas que o rodeiam, e até mesmo das que o constituem, e a segunda o arma para o reto julgamento das coisas.

Com essas duas armas, o homem se livra das opiniões vazias ou dos falsos juízos, que lhe perturbam a alma, como o temor dos deuses e da morte, a apreciação errônea do prazer e da dor. Dessa maneira, como diz Robin, a física e a lógica estão para a moral como a higiene e a medicina para a saúde. Simples meios para se chegar a um fim.

Pela física sabemos que o mundo se constitui de átomos, e que tudo, portanto, é feito de átomos, que se juntam e se dispersam. Quando os átomos se dispersam, a coisa ou o ser acaba. Assim, o corpo do homem e assim também a sua alma. Que é a alma, senão um aglomerado atômico? Qual, pois, a razão de temermos a outra vida, se ela na verdade não existe para nós?

O atomismo destrói a religião e o medo da morte. E assim o homem se liberta dos falsos temores para viver a vida. Mas o atomismo ensina que o equilíbrio da lama depende da harmonia atômica, e portanto que os exageros sensuais não correspondem a “viver a vida”, e sim a esbanjá-la, com as tristes consequências do desequilíbrio, do desespero e da dor. Epicuro chega assim a uma conclusão budista: o supremo prazer é a ausência da dor. A ataraxia se confunde com o nirvana. Nada sentir — eis a salvação da alma neste mundo tumultuoso e incerto.

A canônica, que é a lógica epicurista, equivale mais a uma teoria do conhecimento. Seu objetivo é esclarecer o problema do conhecimento e dar ao homem a segurança para se conduzir no mundo. Epicuro estabelece que o conhecimento provém da sensação. Temos, pois, uma gnosiologia empirista. A fonte de nossas ideias e sentimentos é a sensação: primeiro, representativa, como signo das coisas, afetando nossos órgãos corporais; depois, afetiva, como prazer ou dor, movimentando nossa estrutura psíquica ou atômica. A verdade, porém, está na sensação, naquilo que nos vem do real, da coisa exterior que nos afeta.

Isto nos dá o primeiro cânon ou regra de evidência para a nossa conduta na vida. Mas a outra forma de evidência, que é a antecipação ou pré-noção, ou seja, os conceitos que formamos sobre sensações anteriores, palavras que, ouvidas, despertam em nós sentimentos agradáveis e desagradáveis. Mas essas antecipações, como as próprias noções das coisas, os conceitos, que traduzimos por signos verbais, por palavras, não são convencionais. São realidades, resultantes da ação das coisas sobre nós, através do tempo. Assim, a canônica se complica, pois não é apenas um cânon, uma série de regras para a nossa vida, mas um sistema lógico, embora incipiente, uma gnosiologia e uma ontologia do objeto, em seu sentido mais moderno.

A teoria da evidência nos lembra Descartes. Para Epicuro, a evidência, primeira regra da conduta certa, é impressa em nossos órgãos pelo exterior, pela realidade das coisas. Há, entretanto, a interpretação da evidência, que é uma ação arbitrária da mente. Dessa interpretação é que resultam as opiniões, os falsos juízos. Nossa ciência, pois, estará em saber discernir entre a evidência e a falsidade.

Com isso, Epicuro chega quase à experimentação, quase se torna um precursor do empirismo científico. Porque o discernimento depende da verificação. Para vermos se temos uma opinião ou uma intuição real, devemos recorrer às próprias coisas, e quando a verificação direta não for possível, devemos considerar os fatos para ver se eles confirmam ou contradizem os nossos juízos. Essa experimentação negativa, que só deve ser efetuada em caso de dúvida, não vai, entretanto, nem deve ir mais longe, pois a ciência só interessa na proporção em que deve garantir a nossa tranquilidade, a nossa ataraxia.

Voltamos assim à física, verificando que a doutrina de Epicuro é um todo homogêneo, em que as três partes se ligam e se religam por constante interdependência. Na física verificamos que os átomos enchem o universo, mas não como em Demócrito, em livres movimentos. Pelo contrário, os átomos de Epicuro são pesados, têm peso e caem sem cessar. São gerados lá em cima, no infinito, e se despenham no abismo. Não caem na Terra, mas no espaço infinito, numa queda inexplicável, de natureza absoluta. Caem verticais, mas de vez em quando há um desvio, um declínio. Desse declínio surgem os choques com outros átomos, geram-se os turbilhões de Demócrito, que dão origem à matéria, às coisas e aos seres.

Referimo-nos, na parte sobre Demócrito, ao erro de Epicuro com referência ao movimento dos átomos. Mas escrevemos “erro”, entre aspas, porque, quando analisamos mais de perto a teoria epicurista, verificamos que se trata de uma nova hipótese. Podemos considerar a concepção de Demócrito teoricamente mais pura, por afastar a ideia de alto a baixo, evidentemente ligada às teorias geocêntricas. Mas quando notamos que o alto e o baixo em Epicuro são noções absolutas, sentimos a vertigem de uma concepção abstrata e grandiosa, que nos oferece uma visão espantosa do cosmos.

 

O EXÍLIO DOS DEUSES

 

A física de Epicuro não acarreta a morte dos deuses, como acarretou a da alma. Os deuses continuam existindo. Com isso, poderíamos pensar que o temor da religião ainda se justifica. Mas não é verdade. Porque os deuses de Epicuro se assemelham aos de Tales de Mileto, que nada têm a ver com as criaturas humanas. Os deuses são entidades atômicas que vivem nos intermúndios, ou seja, nos intervalos dos mundos, longe dos mortais e indiferentes a estes. Epicuro admite os deuses, mas toma uma medida prudente (a prudência é para ele o maior bem dos homens, maior mesmo do que a filosofia), de maneira a evitar que eles perturbem a ataraxia: exila-os na vastidão dos espaços siderais.

Não se pense, porém, que estamos diante de uma incoerência. Robin demonstra a coerência dessa teoria. Os deuses são necessários e sua existência corresponde a um dos princípios fundamentais da física epicuriana: a lei de compensação ou de equilíbrio. Para que existam os seres mortais, compostos de átomos grosseiros, na Terra, devem existir os seres imortais, compostos de átomos sutis, no espaço. Por outro lado, como explicar a noção de vida imortal e feliz que os homens possuem, e que deu motivo à elaboração das religiões, sem a existência real dessa vida em alguma parte do cosmos?

Os deuses existem, são necessários, fazem parte da economia do universo, representam o contrapeso dos homens no equilíbrio cósmico, mas não intervêm nem podem intervir na vida humana. E depois da vida, muito menos. Porque, morto o corpo, a alma humana se desagrega na libertação natural dos átomos que a constituem. Nada sobra para o possível exame dos deuses, por mais que estes quisessem intervir no reino da morte.

Se o idealismo humano é o da vida serena, isenta de preocupações inúteis com as coisas do mundo, por que motivo os deuses haveriam de imiscuir-se nas mesquinhezas da vida terrena? Se o homem, para ser sábio, deve viver em paz, como supormos os deuses empenhados nas tricas e futricas da existência efêmera das criaturas mortais? Dessa maneira, não só está afastado, por necessidade lógica, o temor da religião e dos deuses, que implica o temor da morte, mas também o apego às superstições que geraram os oráculos e as adivinhações.

É verdade que o homem fica sem a possibilidade de apelar a potências superiores, que o ajudem a solucionar os seus problemas. Mas que importa isso, quando o homem se emancipa dos temores inúteis e pode caminhar com segurança para a ataraxia, para a invulnerabilidade, que o torna semelhante aos próprios deuses?

O exílio dos deuses é portanto uma medida de interesse imediato do homem. Não só por libertar a este de uma sujeição estúpida, como por lhe facultar, ainda, a possibilidade de assumir o lugar dos exilados. É o que vemos com o próprio Epicuro. Na comunidade de tipo órfico do seu jardim, o filósofo se transforma num deus. Sua doutrina dogmática impõe-se aos discípulos imediatos e aos futuros com a autoridade de uma revelação sagrada. Através dos séculos, o epicurismo manterá a sua estrutura original, admitindo apenas leves alterações de superfície. A palavra do mestre era tão invulnerável quanto ele próprio.

Duzentos anos mais tarde, Tito Lucrécio Caro, o poeta romano, em seu De Natura Rerum, reproduzindo a filosofia de epicuro, trata-o como a um verdadeiro deus, seu salvador. E mais tarde ainda, no século dezessete de nossa era, quando Pierre Gassend — por sinal, sacerdote católico e crítico de Descartes, que em latim assinava Petrus Gassendi — restabelece o epicurismo e influi com seus princípios no espírito de Molière, sua defesa de Epicuro é ainda um hino de louvor e veneração ao deus do Atomismo.

É curioso verificar-se também que a situação do homem-deus do epicurismo é de exílio nos intermúndios. Vemos isso na posição do próprio Epicuro e na constituição órfica de seu jardim. Tanto o mestre quanto os discípulos se isolam do mundo grego, da vida social e da vida pública. Já não se trata da atitude canina dos cínicos ou da abstenção humilde dos cirenaicos. Trata-se, pelo contrário, de uma atitude altiva. Os homens que atingiram a ataraxia são deuses, vivem no seu próprio mundo, ou melhor, no seu intermúndio aristotélico, e não devem preocupar-se com os mortais. Os homens-deuses (expressão que não pertence a Epicuro ou ao epicurismo, e que usamos apenas de maneira simbólica) estão acima das coisas e dos seres.

Esse afastamento do mundo contribui, entretanto, para um estreitamento de relações entre os homens-deuses e a amizade se torna o ponto central de sua ética. É a amizade a única forma de relação social digna do sábio. Antecipando Bentham, entende que a amizade decorre da reciprocidade de interesses entre os homens, de uma exigência, portanto, de utilitarismo vulgar, mas ao mesmo tempo superando-o, esclarece que entre os sábios ela pode ser desinteressada, permitindo aos indivíduos a realização eudemônica perfeita.

No seu agudo individualismo, Epicuro chega a negar a sociedade. Não há nenhuma exigência natural para a existência da pólis ou do Estado. Os homens se reúnem em comunidades porque assim o decidem, com vistas aos seus interesses e às suas conveniências recíprocas. Os organismos sociais não são entidades superiores aos indivíduos, mas simples meios de estes se servirem.

         As instituições sociais sobrecarregam inúltimente o sábio, que delas deve afastar-se, particularmente do matrimônio. Casar-se é ligar-se a compromissos perigosos, inclusive admitir o prazer sexual, que deve ser evitado como um dos mais violentos e grosseiros, portanto, que mais perturbam a tranquilidade do espírito. Um deus não se casa, não tem filhos, não se embaraça com preocupações rotineiras da vida familiar. Um deus é um deus, que vive no intermúndio, gozando a bem-aventurança da ataraxia.

 

A MORTE DO DEUS

 

Mas enquanto os deuses não podem morrer, os deuses-homens morrem como todos os homens. Epicuro sabe disso. Que importa, porém, a morte? Quando ela chega, o homem deixa de ser. Ora, deixar de ser é coisa que não deve nem pode preocupar a ninguém, pois não implica nenhuma responsabilidade, nenhuma consequência. Assim, o homem não tem nada a ver com a morte. Esse é um problema que foge às suas preocupações. Só o ignorante pode interessar-se por uma coisa que não o afeta em nada.

Se a morte fosse a libertação da alma, haveria a preocupação do post-mortem. Mas não é. A alma se dissolve. Chegando à morte, o homem chegou ao limite de si mesmo, e nada mais existe para ele. Um deus-homem espera a morte com serena indiferença, e mesmo que esta venha carregada de dores, em meio das próprias dores ele sabe manter o seu prazer, a sua felicidade inalterável.

Muitos comentadores veem neste passo uma contradição de Epicuro, mas se esquecem de que não possuímos as suas obras. Só temos do filósofo alguns fragmentos, as referências de outros, a tradução poética de Cícero e três cartas-resumos de sua doutrina, reproduzidas por Diógenes Laércio. Há comentadores afoitos e críticos um tanto apressados.

Basta dizer que Epicuro escreveu trezentos livros para vermos a temeridade de querer encontrar contradições em sua doutrina com o pouco que dele possuímos. O mais sensato seria, por certo, admitirmos que nos faltam o elo entre a sua teoria do prazer e a sua teoria da morte heroica. E a verdade é que, melhor do que a mais bela teoria, Epicuro nos deu o exemplo da morte de um homem-deus.          

Poucas horas antes do momento fatal, o filósofo escreveu a Idomeneu estas palavras tocantes, que Laércio reproduz:

Achando-me no feliz e último dia de vida, e já morrendo, escrevo-te assim: tamanha é a dor que me causam o estrangulamento e a disenteria, que parece não poder ser maior a sua veemência. Não obstante, isto se compensa de alguma maneira com a lembrança de nossas descobertas e raciocínios. Tu, como deve ser, pelos testemunhos de amor que me tens dado, por mim e pela filosofia, desde tua mocidade, tomarás a teu cargo o cuidado dos filhos de Metrodoro.

Na hora final, considerava chegar ao termo de um dia feliz e se lembrava de recomendar a um discípulo fiel os filhos de outro, falecido sete anos antes. Segundo Hemarco, Epicuro sofreu quatorze dias, atacado por cálculos renais que lhe obstruíram a bexiga. No último instante, entrou num banheiro de bronze com água quente, pediu um pouco de vinho puro e recomendou aos amigos e discípulos que não se esquecessem dos seus dogmas.

Dali por diante, diz Léon Robin, o culto do mestre tornou-se mais intenso na comunidade do jardim. A morte se deu no ano 270 a.C., e depois dela o exemplo do homem-deus passou a repercutir por toda parte onde houvesse discípulos de Epicuro. O banquete habitual dos discípulos realizava-se no dia 20 de cada mês. Era um simpósio no estilo grego, uma refeição comum, em que se celebravam a amizade e os princípios da filosofia epicuriana.

Passou-se também a celebrar a memória do mestre. O dia de seu nascimento, 10 de gamêlion (entre janeiro e fevereiro), foi dedicado a solenidades religiosas comemorativas, e até mesmo a atos de adoração. Epicuro acabou como Augusto Comte: colocando-se ele próprio no lugar dos deuses que desterrara. Robin acentua: “Morto o mestre, o culto organizado da sua memória, assegurando a coesão da seita, perpetua a doutrina e contribui para propagá-la”.

Uma das atividades curiosas de Epicuro foi o seu cuidado apostolar com os discípulos distantes, que se reuniam em comunidades de amigos, de tipo órfico, a que Robin não vacila em chamar de Igrejas. Epicuro, à maneira de Paulo na propagação do cristianismo, escreve cartas para essas igrejas. Suas epístolas ferventes de ardor religioso contra a religião são endereçadas aos epicuristas de Mitilene, de Lâmpsaco, e a outros espalhados nas distâncias do Egito e da Ásia.

Essas epístolas têm o mesmo caráter catequético das escritas pelos apóstolos cristãos. Resolvem problemas doutrinários e dão conselhos sobre a conduta reta na vida. Como se vê, apesar de sua posição contrária ao cristianismo, não há dúvida de que o epicurismo foi uma das doutrinas que, destronando os deuses antigos e pregando a fraternidade universal, preparou de certa maneira o advento daquele. Epicuro, em muitos aspectos, foi um precursor do mundo em que vivemos.

 

Texto publicado originalmente no livro OS FILÓSOFOS, Ed. Paidéia.



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