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Por Rita Foelker

J. Herculano Pires, mais do que filósofo e profundo conhecedor da doutrina, foi um dedicado divulgador do Espiritismo, em jornais espíritas e não espíritas, no rádio, na TV, em palestras e livros. Tendo iniciado um modesto estudo espírita familiar e sendo cada vez mais procurado por pessoas em busca de orientação, Herculano também abriu as portas de sua própria casa e iniciou as Palestras na Garagem.

A princípio, era uma reunião familiar de estudos e mediunidade, que ocorria semanalmente na casa de Virgínia e Herculano Pires. Com o tempo, chegaram os amigos e se juntaram ao grupo.

Quando a família se mudou para a residência da Rua Doutor Bacelar, o imóvel contava com uma garagem que não era utilizada. Conforme o trabalho de Herculano se tornava mais conhecido, aumentava o número de pessoas que vinham procurá-lo, em busca de orientação espírita. Para melhor atender a essa demanda e, ao mesmo tempo, constituir um novo espaço de divulgação espírita, em 1972, o casal deu início às Palestras na Garagem, que eram semanais e dirigidas por Herculano.

Muitas delas foram carinhosamente registradas em fitas cassete pela tia Lourdes (Lourdes Anhaia Ferraz) e pelo Sr. Miguel Grisolia. Agora você pode ler as transcrições dessas gravações, fruto de um trabalho detalhado e paciente de Antonio Leite, da equipe de colaboradores da Fundação.

 

Palestra 1: Uma Visão Geral da Estrutura da Doutrina Espírita

Nós estávamos no campo do estudo doutrinário. Vocês se lembram que nós falamos sobre a necessidade de realmente estudar a doutrina a partir dos volumes iniciais de Kardec, passando depois pela Codificação.

 

O Livro dos Espíritos

 

A Codificação, como naturalmente todos se lembram, se constitui daqueles cinco volumes que apresentamos aqui. Primeiro, O Livro dos Espíritos. O Livro dos Espíritos é a obra fundamental da Doutrina, portanto, é um livro que nenhum espírita pode deixar de ler. Quer dizer, toda pessoa que realmente se interessar pela doutrina tem de ler este livro, tem de estudá-lo, ele é um livro de estudo. Um dos companheiros de Chico Xavier lá em Uberaba certa vez perguntou a Emmanuel, através do Chico: “Emmanuel, eu já li O Livro dos Espíritos quinze vezes, o que você me aconselha agora?” O Emmanuel disse: “Leia mais quinze.”

 

Parece brincadeira mais é verdade. Por quê? Porque O Livro dos Espíritos é um livro de síntese da doutrina. Então, quem lê assim “de fio a pavio”, como se diz, lê mais ou menos no sentido de quem tá lendo uma leitura corrente, sem muita preocupação. E com isto o livro engana, sem querer enganar. Por quê? Porque é um livro escrito com muita simplicidade. Kardec era um professor, era um pedagogo, era um didata, era um homem que procurava ensinar da maneira mais clara possível. Ele mesmo diz nos seus livros que ele pretendia escrever as obras de maneira que não deixasse motivos para interpretações várias. Quer dizer, uma coisa que fosse dita, que estivesse clara, devidamente clara, para um não dizer “não, ele disse isso”, outro diz “não, ele disse tal coisa”. Então, o esforço dele, nesse sentido, foi um esforço de clareza. Ao contrário das pessoas que escrevem livros assim referentes à doutrina, a doutrinas várias, procurando apresentar várias complicações da doutrina, Kardec fazia o contrário, ele procurava reduzir as complicações e deixar o texto bem claro, bem preciso, para que não houvesse dúvidas, não houvesse controvérsias inúteis, para que tudo se tornasse, enfim, bem inteligível: a pessoa leu e compreendeu.

 

Entretanto, quando se faz isso, também se corre um outro perigo, que é o da pessoa passar muito por cima do assunto, sem prestar atenção. E o nosso hábito de leitura, principalmente aqui no Brasil, é um hábito de leitura muito descuidado, nós corremos os olhos e lemos rapidamente, quanto mais rápido melhor. Agora ainda apareceu aí essa leitura que se chama “dinâmica”, que é um negócio. Muita gente pensa que com aquilo[, a leitura dinâmica,] pode ler uma obra como O Livro dos Espíritos. E lê e não entende nada. É lógico, fica na mesma. Por quê? Porque a leitura dinâmica é muito boa como informação para, como por exemplo, num escritório comercial, na atividade de um industrial, de um homem que está lidando com muitos problemas, poder ao mesmo tempo se inteirar de vários aspectos da correspondência que chega. Isso é muito bom, porque abrevia o tempo e ele logo, os assuntos não são tão complexos, são objetivos, ele vê logo com rapidez do que se trata. Mas para uma leitura de um livro como O Livro dos Espíritos, não serve.

 

O Livro dos Espíritos tem certa semelhança (até parece que eu disse isto aqui, mas convém repetir) tem certa semelhança, nesse aspecto, com o Discurso do Método de Descartes[1]. Descartes foi mesmo um precursor do Espiritismo, como já tivemos ocasião de dizer aqui.  Para começar, para se lembrar de que ele foi um precursor, basta lembrar o seguinte: ele se dizia, ele se achava, se considerava inspirado pelo Espírito da Verdade. E de fato, quando nós lemos a obra de Descartes, nós vemos que ele encaminhava o seu pensamento na direção dos problemas espíritas. E Descartes então escreveu o Discurso do Método com muita simplicidade. Quem lê, pega o Discurso do Método pra ler do começo ao fim diz “é um livro fácil”? Não é, é um livro muito complexo. Basta dizer que Étienne Gilson[2], que é um filósofo francês, escreveu... o Discurso do Método é menor do que isto, é um livrinho de poucas páginas, mais ou menos assim. Étienne Gilson escreveu um livro desta grossura, quase mil páginas, impresso em tipo miúdo, numa edição francesa, para explicar o Discurso do Método, para explicar, para tornar compreensível o Discurso do Método. Então a gente vê quanta coisa Descartes abordou de maneira simples, sintética no seu Discurso do Método. É preciso a pessoa penetrar naquilo, ler com atenção, porque, se não, muitos dos princípios estabelecidos por ele passam despercebidos.

 

No Livro dos Espíritos é a mesma coisa, a mesmíssima coisa. Nós começamos a ler o livro com muita simplicidade, e vamos lendo correntemente e as coisas vão passando sem a gente perceber. Às vezes, uma frase tem um sentido mais profundo do que aquilo que aparece à primeira vista, nós temos de penetrar no sentido da frase, e, além disto, precisamos estabelecer ligações entre os vários assuntos. São numerosos assuntos tratados num capítulo, por exemplo, é preciso ligar esses assuntos entre eles para a gente chegar a uma compreensão global. Eu não posso, por exemplo, destacar um texto do Livro dos Espíritos, como faz muita gente. Principalmente, os que combatem o Espiritismo usam muito essa técnica. Destacam uma frase de Kardec ou um pequeno texto, interpretam aquilo isoladamente do texto geral e, então, levantam problemas que não existem, problemas que são inteiramente estranhos à obra. A necessidade, portanto, é de uma leitura de conjunto, uma leitura atenciosa para a gente poder compreender o conjunto do que o Kardec está dizendo. E também ver mais fundo do que aquilo que nos aparece de primeira vista, porque há problemas ali bastante sérios.

 

Por exemplo, há pessoas que dizem assim: “no Livro dos Espíritos, Kardec não disse nada, não estabeleceu nada sobre o processo da evolução geral, essa evolução que vem desde o mineral até o homem, e que vai além do homem no plano espiritual. Então esse princípio não é do Espiritismo” - Dizem várias pessoas. No entanto, se pegar na pergunta 540 do Livro dos Espíritos, lá está bem claro que a evolução vai desde o átomo até o arcanjo, que também já foi átomo. Quer dizer, nada mais claro do que isto, é preciso. O processo da evolução está bem figurado nessa expressão rápida de Kardec. Noutros lugares, Kardec diz constantemente, Kardec e os espíritos que ditaram várias partes do livro, “tudo se encadeia no universo, tudo se encadeia no universo”. Quer dizer, não há solução de continuidade, não há interrupção nas ligações do universo. O universo é um organismo, este organismo é constituído, portanto, de várias partes, mas todas elas entrosadas, todas elas encadeadas. É por isto que nós vemos a evolução partir do reino mineral, passar para o reino vegetal, para o reino animal, para o reino hominal e depois para o espiritual. É continua, a evolução, é uma corrente.

 

Assim nós vemos, também em todos os demais aspectos do universo, a evolução funciona desta mesma maneira. Tudo no universo está interligado. Nós temos a Terra em que vivemos, a Terra pertence a um sistema solar. Entretanto, este sistema solar pertence a uma constelação, a uma galáxia que é um universo, como dizem os astrônomos, um universo ilhado, separado no espaço, cercado por grandes espaços desertos, vazios, mas lá pra frente nós encontramos outra galáxia, lá para frente outra e assim por diante. Então todo os astros, todas as constelações, todas as galáxias, todos os universos se entrosam num grande sistema que é o Cosmo, é o Cosmo, o Cosmo abrange tudo. É esta a visão de conjunto que o Espiritismo nos dá, quando nós estudamos esses problemas. Então é necessário quando ler O Livro dos Espíritos, ler com atenção e vendo sempre o problema do conjunto.

 

Kardec diz também, continuamente, o seguinte: Os homens em geral veem as coisas apenas por um ângulo da Natureza. Olhando por um ângulo da Natureza, só se tira a conclusão daquilo que se viu, não se tira conclusão do conjunto. O Espiritismo procura nos fazer ver o conjunto da Natureza, o conjunto geral, para nós termos uma ideia mais aproximada da realidade, da verdade. Ora, O Livro dos Espíritos, como nós dissemos, foi dividido por Kardec... dividido não, foi projetado por Kardec em outras obras.

 

Então, a primeira obra que aparece depois da inauguração do Livro dos Espíritos é O Livro dos Médiuns. Por quê? Porque, se no Livro dos Espíritos, nós temos uma síntese geral da doutrina, justamente por isto, nós temos ali o aspecto filosófico da doutrina. Por quê? O ramo do conhecimento que nos oferece uma visão global das coisas não é a ciência, é a Filosofia. A ciência é sempre específica. A Biologia, a Química, a Física, todas as ciências tratam, cada uma, de um aspecto da Natureza. Portanto, não tratam da Natureza em geral, cada uma delas se dedica a um aspecto. A Filosofia não é assim, a Filosofia é uma concepção geral do universo, então ela é o conhecimento geral. No desenvolvimento das ciências, fragmentando-se cada vez mais, inclusive se subdividindo nas técnicas, neste desenvolvimento, o saber humano como que se fragmenta, se despedaça, se espalha. Então, o elemento de unidade desse saber é a Filosofia. Por isso que, recentemente, com o grande desenvolvimento das ciências, apareceu aquilo que chamamos de Filosofia das Ciências. Porque a Filosofia das Ciências tem a finalidade de reunir todas as conquistas das ciências e apresentá-las numa visão filosófica geral.

 

Então, por isto, O Livro dos Espíritos é um tratado filosófico. Muita gente contesta isto. Não faz muito tempo, o Professor Huberto Rohden[3], que na verdade foi uma grande figura do clero católico no Brasil, hoje ele é conhecido como professor, mas ele era um sacerdote católico de grande projeção no clero brasileiro, e que até foi aos Estados Unidos, onde lecionou em várias faculdades norte-americanas como professor de filosofia, este homem deu uma entrevista à imprensa e disse assim: “Não vejo filosofia espírita em parte alguma, aquilo que está no Livro dos Espíritos não tem relação nenhuma com filosofia”. Ora, isto na boca de um professor de filosofia que se projetou até no mundo, é um absurdo de estarrecer. Por quê? Porque a Filosofia não se caracteriza por elementos formais, por forma. Ela tem processos, processo de pesquisa, processo de cogitação, de perquirição mental, tem os seus métodos, mas ela não se define por uma forma definida, caracterizada, precisa, por uma sistemática rígida, nem pode se caracterizar, porque a sua finalidade é a expansão do pensamento no sentido de abranger o todo. Então, ele negou que O Livro dos Espíritas tivesse qualquer coisa de filosófico.

 

Ora, começa que O Livro dos Espíritos coloca os problemas filosóficos fundamentais. O problema da vida, o problema do Ser, que é o problema fundamental da filosofia; o problema das relações do homem com Deus, que é filosófico embora seja também religioso; o problema da existência do universo, a cosmogonia, ou seja, o problema da criação do mundo, do universo. Todos os problemas, enfim, que se relacionam com o homem e a sua vida dentro da Terra em relação com o universo, todos esses problemas estão colocados lá. Os aspectos sociológicos de que O Livro dos Espíritos trata, de que ele trata, são aspectos também relacionados profundamente com os problemas filosóficos. Então, negar que O Livro dos Espíritos seja um verdadeiro tratado filosófico, é querer mostrar uma coisa pelo avesso, querer desfazer uma verdade que está patente.

 

Mas como parece que as coisas são assim, quando acontece um estouro, um absurdo, logo em seguida vem uma emenda que a gente não espera. Logo que o professor Huberto Rohden disse isso numa entrevista à imprensa, a editora da livraria francesa, a Difusão Europeia do Livro, traduziu aqui no Brasil e publicou um livrinho de Yvonne Castellan[4]. Yvonne Castellan é uma escritora francesa, uma professora. O livrinho, se chama O Espiritismo. E logo no início do livrinho, o que diz a Yvonne Castellan? “O Livro dos Espíritos é um perfeito tratado de filosofia.” Então ela examina as várias partes do livro, para chegar a cloncusão de que O Livro dos Espíritos é realmente um tratado de filosofia que apresenta a Filosofia Espírita. Quer dizer, a resposta foi dada ao acusador por uma tradução que veio de fora, lá da França, trazendo a resposta. Sendo assim, O Livro dos Espíritos, uma visão de conjunto da doutrina, ele precisava ser desenvolvido em outros livros. Então, logo a seguir ao Livro dos Espíritos vem O Livro dos Médiuns.

 

 

O Livro dos Médiuns

 

 

O Livro dos Médiuns é praticamente o livro da ciência espírita, é o livro da ciência. Por quê? Porque ali Kardec trata cientificamente da investigação dos fenômenos, da metodologia a seguir para a pesquisa espírita e, ao mesmo tempo, oferece as teorias explicativas dos fatos, dos fatos mediúnicos de todas as formas, tanto os da simples comunicação, quanto os da materialização, o da aparição, da materialização, da movimentação de objetos e assim por diante. Então O Livro dos Médiuns é a parte científica do Espiritismo, colocado também no sentido de fundamento dessa parte. Quando se lê bem O Livro dos Médiuns, chega-se a uma conclusão muito interessante que Kardec já deixou no Livro dos Espíritos, mas que só lá é que vai se completar.

 

O que é a Ciência Espírita? Muita gente pergunta o que é a Ciência Espírita? Muita gente pensa que a ciência espírita seja uma espécie de parapsicologia, uma espécie de metapsíquica. Não é nada disso. A Ciência Espírita, diz Kardec, é a ciência do espírito. Porque existem as ciências da matéria. São várias, numerosas, as ciências da matéria. Mas não existe uma ciência do espírito. No tempo de Kardec, principalmente, quando a Psicologia devia ser a ciência do espírito, ela já estava se desviando do campo propriamente anímico, do campo da alma que ela devia estudar, para entrar no campo experimental, tratando da psicologia no sentido de simples relação do indivíduo com o meio. Tratando do comportamento humano, que é o que faz até hoje. Então, a própria psicologia já saía do campo do espírito, em que ela havia nascido, porque nós falamos que psicologia quer dizer “estudo da alma”, “pesquisa da alma”. Saía desse campo para entrar no campo também da investigação material, das relações do homem, do sujeito, do indivíduo com o meio em que ele vive, com o seu comportamento social, essas coisas todas que, no final, não correspondem a uma pesquisa do espírito, o espírito ficou esquecido. E realmente a psicologia experimental reduziu a psicologia apenas aos fenômenos materiais do homem. O problema da sensação, das emoções, das reações do homem aos estímulos que vêm de fora para ele. Tudo isto reduziu a este campo. Então sendo a psicologia também uma ciência que se voltou para a matéria, o espírito ficou abandonado. O espírito ficou na mão das religiões.

 

Então só havia, como autoridades para falar sobre o espírito, havia os grandes sacerdotes, os  representantes das grandes religiões que eram os incumbidos disto. Só eles podiam falar disto, tratar disto, porque os outros não entendiam nada e nem queriam entender. Os cientistas achavam que este problema de alma, de espírito, de sobrevivência após a morte, era um problema que devia competir apenas às religiões, eles não queriam saber disto. Então Kardec diz: “Não, mas o problema não é este não. A existência do espírito e a sua sobrevivência estão integrados na própria Natureza. Se as ciências têm, por finalidade, estudar a Natureza e revelar-nos a verdade sobre os processos naturais, se ela busca conhecer a realidade, ela tem que cuidar do espírito também. Mas como não havia ciência pra cuidar disso, ele disse “o Espiritismo funda a ciência do espírito”. E fundou mesmo. A ciência do espírito. Então, esta ciência do espírito parte da manifestação do espírito, só tem que partir disto, nós não podemos estudar o espírito no plano puramente abstrato. Não podemos nos afastar da realidade em que nós vivemos para mergulhar no infinito e estudar o espírito lá. Então, a ciência do espírito tem de se apoiar nas manifestações do espírito. Estas manifestações do espírito são dadas, como sabemos, através de toda a fenomenologia mediúnica, através das manifestações mediúnicas. Então nós temos esse campo como o campo de pesquisa da ciência espírita. Mas diz Kardec, o objeto da ciência espírita é o espírito, não é, portanto, os fenômenos em si. É o espírito.

 

Para termos uma ideia do que seja a ciência espírita, podemos ver, não só no Livro dos Médiuns como também no livro O Céu e o Inferno de Allan Kardec, na última parte do livro, as pesquisas feitas por ele com relação ao estado, a situação dos espíritos depois da morte. Quer dizer, ele então investigava os espíritos através da mediunidade, mas tendo como objetivo principal saber o que era o espírito, como o espírito sobrevivia ao corpo, como ele permanecia e vivia no mundo espiritual, o que ele faz no mundo espiritual, qual é o seu destino, tudo enfim que se relaciona com o espírito. Quer dizer, os fenômenos são apenas a porta de entrada da ciência espírita, apenas o elemento que facilita a pesquisa.

 

Eu estou dizendo isto porque é bom a gente conhecer bem este assunto para não fazer confusões. Por exemplo, muita gente diz assim: “a parapsicologia está suplantando o Espiritismo”. Não é verdade, a parapsicologia até agora só confirmou o espiritismo. O Padre Quevedo, por exemplo, diz: “a parapsicologia matou o espiritismo, não existe mais nada”. Mentira do padre, ele não devia mentir, mas mente. Mentira, porque ele sabe que não é assim. Ele sabe, ele tem estudado o assunto e ele sabe que não é. Quer dizer, a parapsicologia só tem confirmado o espiritismo. Até hoje, nenhuma pesquisa da parapsicologia, da parapsicologia moderna, nenhuma pesquisa dela derrubou um único princípio espírita, nenhum. Não é extraordinário, isto? Desde 1930, quando começou a pesquisa parapsicológica nos Estados Unidos, até hoje, não houve nada na parapsicologia que derrubasse um só princípio do espiritismo. Pelo contrário, todos os princípios foram confirmados.

 

Os que querem combater o Espiritismo alegam, então: “não, mas tal cientista diz que pode explicar isto da seguinte e seguinte maneira”. Bom, o cientista disse baseado numa teoria, numa hipótese que ele formulou. Mas o que nos interessa não são as hipóteses, são os resultados da pesquisa. E essas hipóteses que são citadas contra o Espiritismo foram todas derrubadas pela pesquisa, a pesquisa não as comprovou. Então, são hipóteses que não tinham valor, hipóteses apenas como instrumento de trabalho, apresentadas como uma orientação para pesquisa, para ver se conseguia confirmar naquele campo, naquele ponto. Por exemplo, um indivíduo diz assim: Não é espírito que se manifesta, é o próprio espírito do indivíduo, do médium que está falando. Então, esta é uma hipótese, é uma hipótese que foi colocada, vamos estudar, vamos pesquisar. A pesquisa feita provou o contrário. Quer dizer, se provou o contrário, a hipótese caiu, não existe mais. Eles então alegam, baseando-se nessas hipóteses que não existem, foram derrubadas pela pesquisa. Mas a pesquisa até agora só fez confirmar.

 

Então, a ciência do espírito não se preocupa especialmente com os fenômenos. Ela se preocupa principalmente com a verificação da situação dos espíritos, da sua condição de vida, da maneira porque eles se encarnam e desencarnam, tudo isto é problema da ciência espírita. Atualmente, como nós sabemos, as próprias ciências físicas estão entrando neste terreno. Mas por que estão entrando? Porque são obrigadas a entrar. Ao investigar a matéria, por exemplo, os cientistas chegaram a que conclusão? Que a matéria era densa, compacta, impenetrável, que a matéria, por isso mesmo, tinha a sua consistência própria e que ela não podia se relacionar com nada daquilo que se atribuía a ideias abstratas, a pensamentos abstratos. Pois bem, a investigação da física levou à descoberta de que a matéria nada mais é do que, segundo a expressão de Einstein, uma “condensação de energias”. Energias que se condensam e produzem algo que parece para nós opaco, concreto e, ao mesmo tempo, impenetrável. No entanto é apenas uma condensação de energia. Quer dizer, se nós víssemos através de um aparelho especial, eletrônico, a constituição de uma tábua, por exemplo, ou de uma pedra, nós veríamos que há dentro dela grandes espaços vazios que nós não percebemos. Na constituição da matéria, ela não é opaca, não é compacta como aparece para nós. A aparência é uma coisa, a realidade interna é outra. A teoria atômica veio mostrar que existe mais espaços vazios dentro da matéria, do que espaços concretos. Quer dizer, os átomos constituindo verdadeiras constelações com grandes espaços vazios entre as partículas atômicas e o núcleo, né?, os átomos estão mostrando o vazio que existe dentro da matéria que, para nós, parece absolutamente densa. Então nesta investigação da ciência, a ciência teve de penetrar num campo diferente, teve de ir além da matéria, porque ela, por assim dizer, desfez a matéria ou a matéria se desfez na mão dos cientistas.

 

E a conclusão foi a descoberta da antimatéria[5], quer dizer, além da matéria apareceu uma outra coisa que é a antimatéria. E esta antimatéria, para nós que estamos sempre falando no outro mundo que eles negam, essa outra matéria se apresentou para eles como sendo o outro mundo. Sim, o outro mundo. Porque todos os elementos químicos que existem aqui no nosso mundo, existem na antimatéria, só que constituídos de uma constituição diferente da nossa, diferente apenas na posição e na situação dos átomos e das partículas atômicas. Por exemplo, os físicos soviéticos conseguiram obter em laboratório, a elaboração de um antiátomo de hélio. Antiátomo de hélio. Existe o átomo de hélio no nosso mundo, no mundo da matéria. Um antiátomo de hélio no mundo da antimatéria. Este antiátomo tem todas as partículas que tem o átomo de hélio, só que a posição, as cargas das partículas são inteiramente diferentes, são ao inverso das partículas da matéria. Quer dizer, então, a antimatéria parece então como “o avesso da matéria”, segundo algumas expressões. Aparece como o avesso da matéria, mas ao mesmo tempo indispensável à existência da matéria.

 

Então, existem dois mundo interpenetrados, é essa a teoria espírita, dois mundos interpenetrados, é o mundo espiritual e o mundo material. Mas a antimatéria não é o espírito. Então, o que seria a antimatéria?  Para nós a antimatéria é o fluido universal, é o fluido universal de que se constitui o mundo espiritual mais próximo da Terra, aquele que nós sabemos habitado por espíritos ainda revestidos de perispírito pesado, de corpo espiritual pesado, muitas vezes, tão densos, que quase se aproximam da materialidade. Então a pesquisa da própria ciência material acabou confirmando também um princípio espírita que a parapsicologia não podia confirmar, porque não era do campo de pesquisas dela, foi confirmado pela Física. Atualmente como sabemos o avanço das pesquisas, nesse terreno, chegou à descoberta do perispírito, do corpo espiritual do homem, que os cientistas soviéticos chamaram de corpo bioplástico ou bioplasmático. Então, esse corpo também está confirmado pelas ciências... e pelas ciências físicas. Temos mais uma confirmação que seria muito difícil se obter na parapsicologia, mas que se obteve na Física e na Biologia, porque biólogos e físicos estão empenhados no estudo disso.

 

O problema da morte, por exemplo, também as comprovações científicas no campo dessa pesquisa dos físicos e biólogos é absoluta, quer dizer, eles verificam no momento em que o moribundo está morrendo, eles conseguem verificar através das chamadas câmaras Kirlian, de fotografia da antimatéria, eles conseguem ver e fotografar a saída dos elementos vitais do corpo humano, constituindo depois um corpo que é o corpo que eles chamam de bioplasmático, que é o perispírito. Este corpo se retira completamente do corpo material e, só quando ele se retira, o corpo vira cadáver. Antes disso, ele não vira. Quer dizer, então. nós vemos que as comprovações foram decisivas, neste terreno.

 

Mas a ciência espírita, ela trata, como já dissemos, não desses aspectos que pertencem à área de ciências, a área de ciências que dividem os dois campos. Aqui nós temos, por exemplo, as ciências da matéria, aqui nós temos as ciências do espírito. E aqui no meio, nós temos a área das ciências intermediárias, que são metapsíquica, a área da psicologia, ciência psíquica inglesa, e assim por diante, as várias ciências que estudam os fenômenos mediúnicos. Se temos aqui a matéria e aqui, o espírito, temos aqui a mediunidade. Quer dizer, esta área das ciências, que é ocupada pela Parapsicologia hoje, e pela Metapsíquica que ainda também subsiste,  continua a se desenvolver. Então, esta área das ciências é a área que trata da mediunidade e não do espírito, mas esta área, que é do Espiritismo, é a Ciência do Espírito. Olha, então nós já vemos que a doutrina tem aspectos que a gente precisa compreender, prestando bem atenção no estudo, porque, senão, nós podemos fazer confusões. Por exemplo, lá na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, um companheiro de Kardec propôs a ele certa vez: “Vamos trabalhos de materialização aqui.” Kardec disse “acho que não, mas vou consultar o espírito guia”. Consultou o espírito guia dos trabalhos e o espírito disse não. Materializações, efeitos físicos, essa coisa toda é para os cientistas, eles vão verificar isto, você trata do espírito, a pesquisa do espírito.

 

Então, as pesquisas de Kardec, a gente pode ver, principalmente no final do livro O Céu e o Inferno, e ver de maneira completa na Revista Espírita. A Revista Espírita, em seus doze volumes da Revista Espírita, ali a gente vai encontrando as várias investigações feitas por Kardec, tudo publicado integralmente ali, com as manifestações dos espíritos, as respostas dadas a Kardec sobre as suas perguntas. Mostrando como o espírito se sente no mundo espiritual, como inclusive o espírito de pessoas vivas, que foi uma pesquisa muito importante de Kardec. Espírito de pessoas vivas, durante o sono, quando estão dormindo, se retiram e passam a viver no espaço. Então como esse espírito se sente no espaço, o espírito da pessoa viva, quais são as sensações que ele tem, tudo isto foi pesquisado intensivamente por Kardec, durante doze anos de pesquisas. Então, aí nós temos a Ciência Espírita. E O Livro dos Médiuns é o livro fundamental dessa ciência.

 

 

O Evangelho Segundo o Espiritismo

 

O Evangelho Segundo o Espiritismo que nós todos conhecemos bastante. Conhecemos… quer dizer, “bastante” (he, he) no sentido de ouvir falar nele, ouvir algumas leituras, ler um pouco, mas não de penetrar mesmo no miolo do Evangelho.  Penetrando lá, nós vamos ver que há também uma profundidade ali, que nós não conhecemos ainda. O Evangelho Segundo o Espiritismo é aquilo que serve de base, é o livro básico da Religião Espírita. Mas isso não quer dizer que a Ciência Espírita possa se firmar só no Livro dos Médiuns. É O Livro dos Médiuns e O Livro dos Espíritos. A Religião Espírita: O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos. O Livro dos Espíritos é sempre a base de tudo, de todos os aspectos da doutrina.

 

Então, no Evangelho, nós encontramos a colocação dos problemas religiosos de maneira mais ampla e de maneira mais livre. O problema da religião é muito sério, muito complexo, pelo seguinte. Porque a religião que nasceu naturalmente com o homem primitivo, nasceu nas selvas. Nós sabemos que não há um só povo no mundo, em todas as épocas da humanidade, de acordo com todas as pesquisas feitas, não há um só povo no mundo que fosse ateu, nunca houve. Até lá nas cavernas do homem primitivo, existem os sinais de culto, de religião que eles praticavam. Todos os homens, desde que apareceram na Terra, trouxeram com eles o sentimento religioso. Esse sentimento religioso gerou as religiões. Mas as religiões seguiram sempre um caminho formalístico muito perigoso – que era necessário, naturalmente. Quer dizer, tudo isto é um pouco difícil, às vezes, da gente compreender. Quando a gente acusa muito os organizadores de religiões de haverem organizado verdadeiras estruturas mundanas, comerciais, políticas, sociais da religião, quando acusamos isto, nós esquecemos de que também as condições da época em que as religiões se formavam exigiam isto. As condições de próprio conhecimento do homem. O homem não tinha o conhecimento que ele tem hoje, então eles tinham que se entregar a certos sistemas, que era a única maneira dele organizar a sua religião. Mas as religiões foram organizadas assim e, por isso mesmo, se tornaram fortes, poderosas. Porque elas aglutinaram muitos interesses humanos, interesses imediatos, interesses terrenos, e terminaram subjugando os interesses espirituais aos interesses terrenos. Vem daí o problema religioso no mundo.

 

Ora, Kardec se recusou, até o fim da sua vida, a chamar o Espiritismo de religião. Ele só concordou em fazer uma palestra na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, três ou quatro meses antes da morte dele, para explicar porque ele não tinha chamado o Espiritismo de religião. E ele explicou. As religiões são estruturas formais, dogmáticas, portanto profundamente sistematizadas, que submetem as consciências ao seu domínio. O Espiritismo não é e não pode ser isto. O Espiritismo é um movimento livre, um movimento que não pode absolutamente estabelecer-se num sistema igrejeiro. Então eu não queria chamar o Espiritismo de religião para não pensarem que nós estávamos fundando uma nova religião. Mas sou obrigado a dizer que existe a Religião Espírita que é a consequência natural da Filosofia Espírita. Por quê? Porque se a ciência, a investigação do espírito cientificamente provou que o espírito existe, que o espírito é a nossa próprio personalidade, que nós somos espírito, que o nosso corpo é secundário, o importante é o nosso espírito. Se isto foi provado e se se provou que a gente morre e o espírito continua a viver, e que o espírito é imortal, o espírito não morre. E que o espírito está ligado a um processo de evolução que o leva naturalmente a Deus, porque ele já traz em si o sentimento de Deus. É aquilo que Descartes dizia. Volto eu a Descartes. É aquilo que Descartes dizia, a ideia de Deus está no homem como a marca do obreiro na sua obra. Isso é que faz uma obra cunhar sua marca. Assim Deus fez o homem e pôs a marca dele, a ideia de Deus no homem. A ideia de Deus é inata no homem, tanto é inata que, em todos os tempos, todos os povos do mundo tiveram sempre esse sentimento da existência de Deus.

O ateísmo e o materialismo são flores de estufa das grandes civilizações. Quando a civilização se desenvolve, atinge um apogeu, o homem se empolga com as conquistas da civilização. Ele vê que muitas coisas das religiões estavam erradas, que a ciência tem que explicar de novo, então ele quer seguir este caminho novo. E ele se convence de que ele já está com a verdade. O homem é muito orgulhoso, nós todos somos, muito vaidosos, muito orgulhosos. Por que nós somos orgulhosos? Porque nós somos as únicas criaturas na Terra que dispõem de pensamento reflexivo, de pensamento criador. Todas as demais criaturas, todos os animais, todos os seres da Terra não tem essa capacidade. Então nós ficamos muito orgulhosos da nossa capacidade de pensar, de analisar, de verificar as coisas, de aprofundar no conhecimento das coisas e nos enchemos de vaidade e acabamos achando que nós somos os “tais”. E por isso mesmo, então, os grandes cientistas e os grandes sábios terminavam sempre caindo num campo de materialismo, de não aceitar nada das religiões.

 

Eles tiveram mesmo de negar as religiões e lutar com as religiões, porque as religiões não queriam o avanço da ciência. As religiões se opuseram ao avanço das ciências. A ciência, para avançar, precisou lutar contra as religiões. Então tudo isto incentivou o desenvolvimento também do ateísmo e do materialismo. Mas, na verdade, esse ateísmo e esse materialismo sempre está restrito a uma elite, a grande massa da população não cai nesse estado. Por quê? Porque essa grande massa não está embriagada, por assim dizer, pelos elementos da cultura em desenvolvimento. Ela está ainda apegada aos seus sentimentos próprios, profundos sentimentos que traz consigo, os sentimentos religiosos. Os sentimentos do homem são religiosos naturalmente. Então a religião fica restrita sempre a uma elite cultural e, mesmo nessa elite cultural, como sabemos, nem todos são antirreligiosos, nem todos são ateus ou materialistas. Mesmo entre os cientistas, eu falei de Einstein[6], por exemplo. Einstein era um homem que dizia que quando ele começava a pensar em Deus, e ele queria fazer uma equação matemática que representasse Deus na matemática, ele caía na cama com febre alta, porque ele não conseguia alcançar. Quer dizer, então, ele era um homem que reverenciava Deus, conhecia os seus limites e sabia que Deus realmente é alguma coisa que nós não podemos alcançar com os nossos métodos científicos comuns.

 

Mas aí então, saindo do Evangelho Segundo o Espiritismo com a religião espírita. É preciso lembrar também o seguinte, antes disso. Lembrar que a Religião Espírita nasce precisamente, então, desse aspecto. A ciência descobre e prova a existência do espírito. Provando a existência do espírito, nós temos uma modificação na concepção do mundo, porque a demonstração que a ciência espírita dá, da existência do espírito e da sua natureza, não concorda com aquilo que as religiões dizem a respeito. Então a Filosofia Espírita nasce com uma concepção diferente, uma concepção que nem está ligada às religiões, nem à ciência. É uma concepção que nós podemos considerar como intermediária, como esta aqui. Uma concepção intermediária, de um lado está a ciência e, de outro lado, a religião, nesse novo esquema. De um lado está a ciência e de outro lado a religião, aqui no meio está o Espiritismo. O Espiritismo tem muito da ciência e muito da religião. Então, nós temos aqui aquilo que se chama de processo dialético. ‘Dialético’ significa o diálogo, quer dizer quando duas pessoas discutem, estão dialogando, elas chegam sempre a uma conclusão, ou brigam, ou brigam. Se elas não brigarem, se elas tiveram capacidade para realmente trocar ideias e chegar a uma conclusão, elas chegam sempre a uma conclusão que reúne as duas posições, os dois pensamentos. Eu penso uma coisa, ele pensa outra, nós discutimos, discutimos,  discutimos e chegamos a um ponto comum, em que então apresentamos uma terceira solução. Essa terceira solução é a síntese. Então, aqui nós temos a ciência de um lado, a religião, do outro. Há um diálogo, um debate entre elas, a ciência diz uma coisa e a religião contradiz. Mas desse diálogo, que é o processo dialético, sai então a síntese que é o Espiritismo.

 

Então o Espiritismo se apresenta no nosso mundo como uma síntese do desenvolvimento cultural do nosso tempo. É uma síntese de desenvolvimento cultural que vem do Renascimento até o mundo moderno e até o mundo contemporâneo. Então, esta síntese é alguma coisa de novo no mundo, alguma coisa que representa um avanço no conhecimento humano. E, justamente por isso, a importância do Espiritismo no mundo atual.

 

Mas o Espiritismo, chegando a esta concepção de síntese que ele nos apresenta, ele nos leva naturalmente da filosofia para a religião. Por quê? Porque toda religião, toda religião (que é uma visão geral do universo no sentido espiritual e material, não apenas material), toda religião vai... exige de nós uma série de normas de conduta, de comportamento para o homem na sua vida, naquilo que ele esteja de acordo com seus princípios. E a religião nasce precisamente deste momento em que a filosofia se transforma numa moral que vai determinar normas de conduta para o homem de acordo com a sua visão filosófica, e como esta moral se refere também à vida do espírito, se transforma numa religião. Então a Religião Espírita se apresenta como aquilo que Jesus falou a mulher samaritana, é a religião em espírito e verdade. E lembremos o seguinte: Quando Jesus falou isto à mulher samaritana, ele acrescentou, ele falou dos verdadeiros adoradores de Deus. Então ele disse o seguinte: “tempo chegará em que os verdadeiros adoradores de Deus não irão mais adorá-lo no Monte Garadin”, que era o monte que tinha o templo dos samaritanos, que eram dissidentes dos judeus, sem contatos com os judeus, uma dissidência. “Não irão mais ao Monte Garadin, nem no Templo de Jerusalém, porque eles adorarão a Deus em Espírito e Verdade”. Quer dizer, não mais através do culto exterior, não mais através do culto realizado numa igreja com imagens, com todo o aparato de um culto, mas adorando em espírito e verdade. Por isso, ele recomendava, às pessoas, orarem no seu quarto, em silêncio, afastadas dos outros, sem demonstrações exteriores, porque não precisava aquela exteriorização dos cultos. Então, a religião espírita se define como uma religião viva, religião em espírito e verdade, segundo esta colocação evangélica do problema da religião.

 

O Céu e o Inferno

 

Mas, além do Evangelho Segundo o Espiritismo como nós falamos, vamos encontrar o livro O Céu e o Inferno. E este livro, O Céu e o Inferno, é um verdadeiro julgamento que Kardec faz das religiões e, particularmente, das religiões cristãs. Por quê? Porque ele analisa e estuda bem o problema de como surgiu o dogma do inferno, e ele faz uma comparação muito importante entre o inferno dos pagãos, o inferno, por exemplo, da mitologia grega e da mitologia romana, e o inferno dos cristãos. E ele mostra o seguinte: que o inferno cristão é muito mais cruel e muito mais bárbaro, muito mais injusto do que o inferno dos pagãos. Então ele, analisando isto, fazendo o confronto, ele mostra por exemplo, que no inferno dos pagãos existiam as penas, os suplícios. Mas esses suplícios decorriam naturalmente da condição do indivíduo e não existiam demônios para estarem ali, martirizando, torturando as almas. Mas no inferno dos cristãos existem, além de todos os suplícios que o indivíduo passa, em consequência dos seus próprios erros, existem os demônios incumbidos de tocá-las dentro da caldeira, de espetá-los com garfos e essas coisas todas. Quer dizer, tudo isso figurado, mas existe. Então, Kardec mostra que é um absurdo aceitar-se um tipo de dogma, que está muito abaixo até da própria concepção dos pagãos, do tempo do paganismo. Que a concepção do paganismo era mais elevada, mais humana do que a dos cristãos.

 

Ora, este livro também, O Céu e o Inferno, é muito importante porque ele tem, na segunda parte, como dissemos, vários exemplos, que Kardec cita, de como os indivíduos sentem do lado de lá. Os espíritos maus, por exemplo, que passaram para lá, quais os tipos de sofrimentos que estão sentindo. Então, o verdadeiro o inferno é o inferno que decorre da consciência do indivíduo, que ele, sentindo-se culpado, ele se submete àquelas condições. E o céu é também um céu que decorre da consciência do indivíduo. Se o indivíduo, portanto, tem a sua consciência pura, livre, tranquila, ele não é maldoso, ele não procura prejudicar ninguém e nem fazer nada para destruir coisa alguma, mas, sim, procura viver tranquilo, auxiliar e colaborar naquilo que se precisa fazer e construir no mundo. Então, ele tem naturalmente uma situação privilegiada na sua consciência, ele vive no céu, aqui mesmo no mundo, e vive no inferno, aqui mesmo no mundo se ele for mau.

 

Ora, esta concepção de Kardec no Céu e o Inferno é muito importante porque traz uma contribuição para esclarecer os problemas da religião de maneira racional através da pesquisa da ciência espírita. Pesquisando a situação dos espíritos do lado de lá no plano espiritual, depois da morte, como eles estão vivendo lá. Então é uma contribuição muito importante, a gente precisa ler esses livros, aprofundar, pra gente conhecer os problemas. Muitas vezes, a gente se defronta com problemas aqui na Terra, problemas espirituais, nós todos estamos cansados de saber disso, e não sabemos como dar a solução. Se lêssemos, se estudássemos os livros da Codificação, nós teríamos as soluções ali, brotando das próprias páginas. São apontadas ali, porque Kardec ensina, exemplifica, esclarece e aponta os caminhos a seguir.

 

A Gênese

 

Depois de O Céu e o Inferno, nós temos A Gênese. A Gênese é um livro muito importante que trata do nascimento da Terra. De como a Terra foi criada, como ela se desenvolveu, como ela se formou. E Kardec não foge à concepção bíblica, pelo contrário, ele analisa a concepção bíblica da Gênese, ele analisa a gênese bíblica e confronta a gênese bíblica com os resultados das pesquisas científicas até o seu tempo. Então ele mostra [que], inclusive o problema dos sete dias da Criação, é um problema que tem de ser entendido na base dos sete períodos, dos setes grandes períodos do desenvolvimento da Terra. Então, ele mostra que muitas coisas nas Escrituras Sagradas são alegóricas, são dadas em forma de alegorias, porque eram coisas que teriam de ser explicadas mais tarde aos homens que, naquele tempo, não podíamos entender. Assim nós temos uma visão geral da Codificação do Espiritismo, que nós precisamos estudar para poder compreender a doutrina e para nos beneficiar naturalmente com o seu conhecimento.

 

Agora, por que esse conhecimento? Isso é mais importante, muita gente pergunta: por que eu quero saber tudo isso? Porque nós somos criaturas humanas que temos um destino imortal. Pense um pouco nisso, que é muito sério. Nós não acabamos não, de jeito nenhum. O sujeito que tomar veneno e morrer, o sujeito que se atirar no rio para morrer afogado, ele pensa que acabou e não acaba. Depois ele vai acordar, do lado de lá, e ver que ele continua. E que o que ele fez para o corpo dele está repetido no seu perispírito, no seu corpo espiritual. Então, aquilo que ele pensou que ia liquidar, em vez de liquidar, apenas prejudicou-o, o colocou numa situação muitas vezes dolorosa, que ele tem de enfrentar por muito tempo, até se libertar daquilo que ele mesmo produziu nele. E em geral essas pessoas voltam à reencarnação trazendo as consequências daquilo que produziram no perispírito, e essas consequências se reproduzem aqui no corpo físico. Então, quer dizer, o problema de nós sermos imortais é um problema muito sério, nós precisamos pensar nele.

 

Nós não nascemos e não vivemos aqui no mundo apenas porque Deus quisesse se deleitar ou se divertir com uma humanidade maluca como a nossa, vivendo aqui e fazendo estranhices e loucuras e Ele, lá de cima, apreciando. Deus não ia criar um planeta como a Terra, colocar no espaço, deixar milhões e milhões de anos esse planeta girando no sistema solar. Tendo ainda uma âncora tão bonita como a Lua pendurada no céu, para se equilibrar, a Terra na sua evolução... Não ia fazer isto, naturalmente, por brinquedo. Deus, segundo a nossa concepção, tem de ser, tem de indicar, Deus é uma inteligência infinitamente superior à nossa. É a inteligência que nós podíamos dizer assim, é a inteligência do universo. Diz O Livro dos Espíritos: “É a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”. Essa inteligência não está num cérebro como o nosso, ela é uma inteligência que vive em liberdade, em pureza, que vive no absoluto, é uma inteligência absoluta. Nós nem podemos alcançar o que seja isso. Então, esta inteligência não ia fazer brinquedos, nem diversões. Então, uma vez que nós temos um destino imortal, um destino eterno, e que a finalidade da nossa vida tem de ser explicada por esse destino, então nós precisamos desses conhecimentos. Nós precisamos saber por que estamos na Terra, o que estamos fazendo aqui, para onde nós vamos. Quais são as atitudes que nós temos de tomar com relação a todos os nossos problemas, para podermos realmente avançar no nosso destino. Porque, se nós não avançamos ficamos atrasados e ficamos atrasados, no processo evolutivo.

 

Há uma imagem de Jesus muito bonita, no Evangelho, em que ele fala... Escapou agora... Mas a imagem corresponde mais ou menos o seguinte. Estão me escapando os termos do texto evangélico. A imagem corresponde ao seguinte. É preciso que a gente facilite um avanço, a evolução. Porque se não facilitar, a evolução nos empurra para frente de qualquer maneira. É como se nós estivéssemos, por exemplo, dentro de um rio, o rio está correndo para o mar. O nosso destino não é ficar nas margens do rio, o nosso destino é ir para o mar, nós queremos ir para o mar. Mas nós resistimos, nós dentro do rio resistimos e não queremos ir. Então nós agarramos as raízes do barranco do rio, nos apegamos a tudo que possa nos segurar. Nós fazemos um esforço enorme para nos segurar e as águas do rio estão nos impelindo para frente, estão nos impelindo. Quer dizer, se nós saímos do rio e depois sentimos vontade de voltar ao rio, temos necessidade. Porque o rio está nos convidando a ir para o mar, nós voltamos e continuamos a lutar. Aqueles que estão lutando estão sofrendo e são, às vezes, arrebatados e atirados longe pelas águas até encontrarem o seu, até aprenderem a se deixar levar nas águas, aprenderem a se deixar levar. É uma imagem que nos dá uma ideia do que é a vida. Quer dizer, dentro da vida, a imagem de Jesus é o seguinte: “Quem se apega à sua vida perde-la-á; aquele que perde a sua vida por amor de mim, esse a encontrará”.  

 

Quer dizer, quem se apega à sua vida é aquele que se apega à vida passageira em que nós estamos, se agarra às raízes do barranco do rio e diz: “Não, eu não vou pra frente não, eu quero ficar aqui, eu quero ficar aqui”. Então vem a dor, vem o sofrimento, vem tudo isto e joga o sujeito pra frente. Quer dizer, as leis da evolução são poderosas e nos impelem, elas não vão permitir que nós fiquemos parados, elas estão sempre agindo em torno de nós e nos empurrando para frente. As pessoas que se apegam à sua vida e ficam agarradas a ela, elas perdem a sua vida porque o que existe de bom na sua vida, de essencial na sua vida, é o impulso para a frente que elas não usam. Elas querem se agarrar ali e por isto são chicoteadas, são empurradas, são lançadas para frente. Quer dizer, então a dor, o sofrimento, é como dizia Léon Denis que foi o sucessor de Kardec, na orientação do Espiritismo mundial depois da morte de Kardec. Léon Denis dizia: “A dor é uma lei de equilíbrio e de educação”. Quer dizer, nós todos sofremos, as nossas dores. Os nossos sofrimentos nada mais são do que impulsos para fazer com que nós compreendamos o nosso destino. Nós temos de ser arrancados das posições a que nos agarramos e, por isso, a vida na Terra é curta. Porque se a vida fosse de quinhentos anos por exemplo, o que seria essa humanidade? A vida sendo curta de, no máximo aí, 70, 80 anos, 100 anos que seja... Ela sendo curta assim e nós estando ameaçados constantemente, a todo momento, nós sabemos que podemos morrer a qualquer momento.

 

Dizia o Buda que, em cada respiração que nós damos, em cada respiração, a morte se aproxima de nós 75 vezes. Nós estamos sujeitos a morrer a qualquer momento, o indivíduo está vivo, está falando e pode cair morto, o outro está indo pra rua e pode cair morto. Quer dizer, nós sabemos então que a nossa fragilidade, a fragilidade humana, é terrível, ela é mesmo quase que impossível da gente contornar, é impossível mesmo de contornar, não sabemos, estamos absidados[7] a tudo. E sabendo isso, que estamos absidados a tudo, que a vida é curta, nós nos agarramos de tal forma às coisas do mundo, às riquezas, às posições, aos títulos, à importância pessoal, individual de cada um, que nós não vamos pra frente. Então, precisa vir a dor mesmo, não tem outro jeito, porque, assim mesmo, nós andamos devagar. Agora, se nós tivéssemos quinhentos anos de vida para ficar flauteando aqui na Terra à vontade, então não progrediríamos mesmo, de jeito nenhum. Então quer dizer, e é neste sentido que o estudo do Espiritismo é necessário: Não basta nós virmos a uma sessão espírita para procurar, por exemplo, a solução de um problema de obsessão, a consolação, no caso da perda de uma criatura querida. A gente encontra isso, encontra, felizmente encontra, porque o Espiritismo é também o Consolador, como disse Jesus. É o Consolador. Mas essa consolação não deve servir para nós de anestésico, deve, pelo contrário, servir de impulso para nos mostrar que existem coisas maiores para frente. E nós só podemos avançar nisso procurando conhecer a doutrina, estudando-a, aprofundando no conhecimento dela. Porque sem estudo, sem conhecimento da doutrina, nós ficamos fazendo, do Espiritismo, o que os próprios apóstolos de Jesus quiseram fazer do cristianismo.

 

Basta ler o livro de Atos dos Apóstolos, no Evangelho, para a gente ver que os apóstolos de Jesus na sua maioria, na sua quase totalidade, não foram capazes de compreender a grandeza do cristianismo. O que Jesus estava ensinando? Jesus estava ensinando que era preciso reformar o mundo, mudar tudo, fazer um mundo novo. E eles entenderam que Jesus estava criando uma seita do judaísmo. O próprio apóstolo Pedro, que era um apóstolo em quem Jesus tanto confiava. O próprio apóstolo Pedro não brigou com o apóstolo Paulo? Por quê? Paulo não era apóstolo de Jesus, Paulo como ele dizia, ele veio depois, como um abortivo dizia ele, um apóstolo que veio depois da morte de Jesus. Então, ele mesmo brigou, está lá no livro de Atos. Por quê? Porque o apóstolo Pedro entendia que o indivíduo, pra ser cristão, tinha que, primeiro, ser judeu. Por que ser judeu? Porque se não fosse judeu, não estava na aliança do Velho Testamento e não podia ser cristão. Quer dizer, ele entendia então que o cristianismo era uma seita do judaísmo. Com isso, Jesus foi buscar Paulo, na estrada de Damasco. Paulo, que era contra o cristianismo, mas que era uma inteligência vigorosa, uma grande cultura e, sobretudo, um grande caráter, um espírito firme que se dedicava a um assunto, ele se entregava de corpo e alma, foi buscar Paulo, lá. E ele mesmo, Jesus, ensinou a Paulo, o evangelho. Não o deixou na dependência dos apóstolos. O próprio Paulo diz isso, que depois que ele aprendeu o evangelho no seu encontro com Jesus na estrada de Damasco, depois, só mais tarde, ele foi à Igreja de Jerusalém para conversar com os apóstolos e mostrar que ele já conhecia o evangelho. Ele não foi aprender o evangelho com eles. Ele já conhecia. Por quê? Porque ele quis dar autoridade a Paulo, porque só Paulo podia modificar aquela situação. Os apóstolos judaisantes, como Paulo os chamava, os apóstolos judaisantes estavam transformando o cristianismo numa seita.

 

Não vamos, nós, querer fazer a mesma coisa com o Espiritismo. O Espiritismo não é seita religiosa, não pode ser seita religiosa. Espiritismo não tem igreja, não pode ter igreja, não tem padre, não pode ter padre, Espiritismo não tem... Muita gente estranha isso. O meu tio, por exemplo, tornou-se espírita, do dia para a noite, por causa da obsessão da mulher dele. Um dia eu chego lá e ele diz assim: “Olha, eu tenho um problema muito sério pra conversar com você”. “O quê? “Eu agora sou espírita, mas tem o meu filho pra nascer e como é que eu vou fazer, não batizo?” Eu disse: “Você é espírita, você não vai batizar.” “Mas como, então ele vai crescer pagão?” “Não, mas escuta lá, o pagão não é isso, pagão eram os chamados ‘pagãos da Antiguidade’. Hoje, o indivíduo que não é batizado, ele não é batizado numa igreja, pode ser batizado noutra. E no Espiritismo o batismo é outro. Porque “batismo” quer dizer simplesmente iniciação, introdução do indivíduo numa nova ordem de coisas, numa nova forma de conhecimento. Quando o seu filho estiver crescendo você ensinando para ele Espiritismo, você está batizando. Além disso, há batismo do espírito no evangelho. E o batismo do espírito é justamente a pessoa esclarecer-se espiritualmente e receber as influências boas, a assistência dos espíritos.”

 

Tem aquele episódio do apóstolo Pedro em Jope, quando ele vai atender o centurião Cornélio e, lá na casa de Cornélio, ele vê a família em torno do centurião romano que, para ele, era gente impura, gente de quem ele não devia nem se aproximar porque um judeu não se aproximava de goyins[8], de gente impura.  Ele chega lá e encontra o quê? Encontra toda a família do centurião recebendo espíritos, todos desenvolvendo a mediunidade. Os apóstolos consideravam isto, o batismo do espírito. O batismo do espírito era o desenvolvimento mediúnico, a pessoa recebendo espírito estava batizada. Então quer dizer, não vamos nos restringir agora a também encarar o Espiritismo como uma seitazinha em que temos de introduzir tudo isso. Houve uma época em que um pregador espírita aí, um grande pregador espírita, que foi até Deputado Federal, andou fazendo uma campanha, e ficou indignado comigo, porque eu me opus à campanha dele. Andou fazendo uma campanha em que ele dizia assim: “Precisamos, quando morre um espírita, trazer para o centro espírita, por o cadáver na mesa, no centro espírita, e fazemos a recomendação. Como não? Pela igreja não se faz a recomendação do espírito? Nós também temos de fazer no centro espírita. Precisamos fazer batizado, precisamos fazer casamento espírita.” Tudo isso ele andou pregando por aí, um homem que devia conhecer bem o Espiritismo, mas infelizmente não chegou a conhecer.

 

Certa vez, num Congresso Espírita em Belo Horizonte, quando ele entrou no Congresso, eu que tinha sido escalado (por azar dele), eu tinha sido escalado para ser o orador de abertura do Congresso. Quando ele entrou no Congresso, nomearam uma comissão para ir recebê-lo na porta, contra o quê, eu fui contra também. Nomear uma comissão... Por quê? Ele é o nosso confrade, nosso companheiro, ele vem aqui como eu venho, como todo mundo vem, entra aqui senta e participa. Essas solenidades, essas distinções, dentro do espiritismo, não têm cabimento. Nomearam uma comissão e a comissão foi lá o recebeu e trouxe. Quando eu fui falar, naturalmente, eu não podia esquecer a presença dele ali. Não fiz nenhuma referência a ele, mas me referi aos absurdos que ele estava semeando. Adverti no Congresso de que o Espiritismo não era religião dogmática, sistemática, igrejeira, de forma alguma! Que havia, no Espiritismo, um aspecto religioso, que é uma decorrência natural da doutrina, mas que não podia ser transformado, este aspecto, na criação de uma nova religião. Bom, ele obviamente desconfia.

 

Ele viu que aquilo tudo era pra ele. Mas a gente se vê obrigado a tomar atitudes assim, porque, se não, vai embora. Se tinha uma pessoa de representação, uma pessoa de cultura, começa a dizer isso no meio espírita e o meio espírita, com uma grande quantidade de pessoas que não têm conhecimento da doutrina. Estão se aproximando do Espiritismo para receber benefícios, e graças a Deus recebem e precisam receber, e estes benefícios, vão servir para integrá-las, mais tarde, no espiritismo, mas se começam a receber informações erradas assim, daqui a pouco, é uma barafunda.

 

Pois é, então precisamos ter muita cautela no espiritismo, neste sentido. Vamos nos beneficiar com os benefícios que os espíritos nos dão, nos trazem, os benefícios imensos que eles nos proporcionam em todos sentidos. Dentro, naturalmente, das nossas possibilidades, das nossas condições de recebê-los. Mas não vamos querer transformar o Espiritismo numa simples forma de religião, principalmente de religião salvacionista. Eu entro no espiritismo porque, no espiritismo. eu encontro a salvação? Não. A salvação não depende de nenhuma religião, nem do Espiritismo, depende de cada um de nós. A salvação é simplesmente o indivíduo não ficar encravado aí na Terra, ele saber evoluir, aprender evoluir, nada mais que isso. E isso depende dele, não depende de nenhuma religião.

PARTICIPAÇÃO DOS ASSISTENTES

JHP - Bom, por hoje nós ficamos nisto, quem é que tem alguma coisa a dizer pode dizer.

Ouvinte – Há alguma notícia sobre Obras Póstumas?

JHP – Notícia, como?

Ouvinte – Não pertence, assim, à própria Codificação? É um comentário muito valioso.

JHP – Não, não. Obras Póstumas foi um livro que foi publicado 20 anos depois da morte de Kardec, 20 anos depois, mais ou menos 20 anos. É um livro que constitui-se de... [Ininteligível]

JHP – E a senhora está gostando aqui do calor do Brasil?

Ouvinte – [Ininteligível]

JHP – É o efeito da poluição aqui de São Paulo

Bom, nós vamos continuar um pouquinho ainda naquele problema do estudo da Doutrina. Eu acho muito necessário, nós virmos esclarecendo, porque há vários aspectos que nós precisamos nos familiarizar com eles. Um deles é a natureza progressiva da Codificação. A primeira coisa que nós precisamos compreender a respeito, é que o Espiritismo não veio, assim, de um jato, não foi dado como uma espécie de uma revelação divina, que é simplesmente feita por um profeta ou por um messias.

 

O Espiritismo nasceu progressivamente através das manifestações mediúnicas, estudadas e controladas por Kardec. É aquilo que Kardec chama “uma conjugação da revelação divina com a revelação humana”. Ou seja, o trabalho dos espíritos, trazendo informações sobre aquilo que nós não conhecemos, aqui na Terra. A vida dos espíritos, a maneira por que eles se comunicam, a maneira por que eles trabalham o nosso mundo, por que eles nos auxiliam e por que aqueles espíritos inferiores podem também nos prejudicar. Então esta revelação é feita aos poucos. Os espíritos vão naturalmente manifestando-se através de fenômenos vários e dando informações, na proporção em que Kardec vai fazendo perguntas, Kardec vai se interessando pelo assunto.

 

Este tipo de revelação só poderia surgir, como diz Kardec, no momento em que a humanidade houvesse superado aquela fase de, podemos dizer assim, no plano pedagógico, de simples didatismo, em que os espíritos reveladores encarnavam-se na Terra, na forma de um profeta ou de um mestre espiritual, e ensinavam simplesmente as verdades fundamentais. Esta fase tinha de ser superada pelo desenvolvimento da inteligência humana, da capacidade cultural do homem e da cultura humana em geral. Quando nós falamos do desenvolvimento da inteligência humana, muita gente pergunta: “Mas, já antes de Jesus, não houve certos povos, como, por exemplo, os gregos na Antiguidade que revelaram um grande desenvolvimento intelectual?” Sim. Mas foram povos que nós podemos chamar de balizas, no processo da evolução, povos que lideravam a evolução, que vinham auxiliar a evolução intelectual. Povos que, na verdade, não pertenciam àquilo que nós chamamos a humanidade terrena, povos que vieram de outros mundos no processo de migração espiritual.

 

Nós sabemos e já vimos aqui, quando tratamos da escala dos mundos, que, na proporção em que um mundo como a Terra, por exemplo, vai passar de um grau para outro, no seu processo evolutivo, da mesma maneira que um ser humano passa da infância para a adolescência, da adolescência para a mocidade, da mocidade para a madureza, quando vai passar num nível deste, o mundo vai passar para um plano mais elevado, então acontece o seguinte: Nem toda a população desse mundo acompanha, pode acompanhar essa evolução. Nem toda ela está apta a avançar de acordo com a evolução necessária daquele mundo. Os elementos que não estão aptos serão afastados desse mundo, serão removidos para outro mundo. Não é um castigo, não é uma consequência negativa. É apenas o que eu costumo chamar uma providência administrativa. Quer dizer, aqueles espíritos não atingiram o grau de evolução necessário para acompanhar a evolução do mundo em que estão.

 

Como o mundo tem de se elevar, e há uma grande quantidade de elementos da população que estão em condições, que já amadureceram suficientemente para este salto no futuro, então, não é justo que se sacrifique aqueles que avançaram, em benefício dos outros que não avançaram. E, mesmo, não se pode deixar os dois juntos, porque um impedirá o avanço do outro. Quer dizer, um passará a falar numa linguagem que o outro não entende, há uma defasagem cultural, que se torna difícil. Então, nesses momentos, acontece o seguinte: Aquela população que tem de ser removida para outro mundo, vai para um mundo onde essa população vai, por assim dizer, para reiniciar o seu aprendizado. Mas nesse mundo, para que ela é removida, esta população vai levar também uma contribuição, porque já é mais elevada do que aquela população que lá está. Então ela vai levar pra lá uma contribuição para auxiliar a evolução daquele mundo. Suponhamos o seguinte, numa escola os alunos de uma terceira série por exemplo, e de um curso qualquer, nos exames, não conseguiram passar todos. Uma parte que sobrou não vai passar para a quarta série, vai continuar na terceira série. Então esta parte vai se reunir com os alunos que vêm da segunda série. Ora, os alunos que vêm da segunda série não têm a mesma experiência que já têm aqueles que não passaram nos exames. Eles não passaram, não conseguiram subir, mas eles já têm uma experiência maior, porque eles já fizeram a terceira série durante um ano, mas eles se juntam, se reúnem na mesma classe. Então, aqueles que já fizeram o terceiro ano, mas não conseguiram passar, têm mais experiência e, as vezes, mais conhecimentos mesmo, do que os que vieram da segunda, e poderão auxiliar aqueles. Acontece isso na passagem do mundo, não sei se ficou bem explicado isso.

 

Ora, sendo assim, nós podemos considerar os gregos, os egípcios antigos. Quer dizer, nem os gregos, nem os egípcios antigos não existem mais. Os gregos de hoje são outros, os egípcios são outros, os egípcios de hoje são árabes, não são mais egípcios, e os romanos antigos. Todos eles constituíram civilizações que vieram para a Terra como resíduos de civilizações de outros mundos que evoluíram. E trouxeram aqui a sua contribuição. A contribuição que eles deram auxiliou, em grande parte, a evolução da humanidade. Mas esta evolução tinha de prosseguir, como prosseguiu, juntando outras muitas populações que estavam afastadas da elevação cultural em que se encontravam, por exemplo, gregos e romanos e, principalmente, os gregos.

 

Nós vemos, por exemplo, na História, a queda do Império Romano como uma espécie de um processo muito importante de difusão da cultura. Por quê? Porque os romanos, primeiro, procuraram difundir a sua cultura, não com a intenção de difundi-la, mas com a intenção de dominar o mundo, conquistando outros países. Mas eles não conseguiam com isso levar realmente a sua cultura à profundidades necessária e expandir até regiões mais distante. Então, houve a invasão bárbara. Quer dizer, os bárbaros vieram, por assim dizer, impulsionados por um processo histórico, eles vieram beber a cultura romana na própria Roma. Ao dominarem Roma, aconteceu pra eles o que aconteceu com os romanos, quando dominaram a Grécia. Eles dominaram a Grécia mas foram vencidos pela cultura grega, que era superior à deles. Com isso, os romanos também deram um impulso pra frente, no plano cultural. Assim aconteceu com os bárbaros...

 

 

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Nota sobre a Qualidade dos Áudios

 

As gravações originais apresentam níveis de qualidade variáveis. Alguns trechos estão quase completamente corrompidos.

 

A linguagem coloquial está mantida nas transcrições.

 

A numeração não segue a ordem cronológica, mas a criação de um índice das mesmas.

 

 

 



[1] René Descartes (1596-1650). Filósofo, físico e matemático francês.

[2] Étienne Gilson (1884-1978). Filósofo e historiador da filosofia francês.

[3] Huberto Rohden (1893-1981). Filósofo, educador e teólogo.

[4] Yvonne Castellan é autora do livro L’Espiritisme, traduzido por Alcântara Silveira e publicado por Ed. Globo RS na coleção Saber Atual, no ano de 1955.

[5] Antimatéria. “A antimatéria é literalmente o inverso da matéria. Apresenta mesma estrutura, massa e rotação da matéria, mas com sinal de carga elétrica oposto.” (site Mundo Educação)

[6] Albert Einstein (1879-1955). Físico teórico e matemático alemão, desenvolveu a Teoria da Relatividade.

[7] Arqueados, curvados.

[8] Goyin Gentio, não judeu. Termo usado pelos judeus para referir-se aos não judeus.

A princípio, era uma reunião familiar de estudos e mediunidade, que ocorria semanalmente na casa de Virgínia e Herculano Pires. Com o tempo, chegaram os amigos e se juntaram ao grupo.

Quando a família se mudou para a residência da Rua Doutor Bacelar, o imóvel contava com uma garagem que não era utilizada. Conforme o trabalho de Herculano se tornava mais conhecido, aumentava o número de pessoas que vinham procurá-lo, em busca de orientação espírita. Para melhor atender a essa demanda e, ao mesmo tempo, constituir um novo espaço de divulgação espírita, em 1972, o casal deu início às Palestras na Garagem, que eram semanais e dirigidas por Herculano.

Muitas delas foram carinhosamente registradas em fitas cassete pela tia Lourdes (Lourdes Anhaia Ferraz) e pelo Sr. Miguel Grisolia.. Agora você pode ler as transcrições dessas gravações, fruto de um trabalho detalhado e paciente de Antonio Leite, da equipe de colaboradores da Fundação. 

SOBRE A QUALIDADE DOS ÁUDIOS: As gravações originais apresentam níveis de qualidade variáveis. Alguns trechos estão quase completamente corrompidos. A linguagem coloquial está mantida nas transcrições. A numeração não segue a ordem cronológica, mas a criação de um índice das mesmas.

 

 

 

 

Palestra 3: Os temas do Livro dos Espíritos, desenvolvidos nas demais obras da Codificação

Incluindo considerações sobre a ciência espírita como auxiliar das religiões

Nós vamos continuar a nossa palestra da semana passada – nossa palestra no sentido de “conversa”. Nós estávamos falando sobre o Espiritismo, uma maneira de nós o compreendermos no seu sentido geral. E eu me lembro de que, no final, eu disse “bom, nós temos que entrar mais precisamente no assunto da doutrina, como estudá-la, como iniciarmos nela, como desenvolver o nosso conhecimento doutrinário”. Mas eu não entrei porque já tinha falado demais. Vamos agora ver se a gente consegue desenvolver bem esse outro aspecto. É evidente que o que mais nos interessa, o que mais deve nos interessar, é precisamente o problema do conhecimento da doutrina. Então, em seguida àquilo que nós dissemos no sábado anterior, nós vamos agora falar da doutrina em si. Da doutrina no seu aspecto concreto, ela publicada em livros, ela colocada diante de nós para o estudo.

Nós já tivemos, me parece que na conversa anterior, uma visão geral da doutrina, da sua importância, da sua significação, do que ela representa para nós e para a Humanidade toda. Mas o que nos interessa hoje é ver como, de que maneira, nós podemos nos enfronhar da doutrina, tomar conhecimento dela em todos os seus aspectos. Nós sabemos que existe aquilo que é chamado a Codificação do Espiritismo. Essa Codificação se constitui de cinco livros fundamentais. É O Livro dos Espíritos, este é o livro básico, como nós sabemos. O Livro dos Espíritos, Kardec praticamente começou a escrever em 1854 e ele foi terminar em 1857. Foi quando... não ele terminou, um pouco antes de 1857, ainda em meados de 1856. Foi quando ele submeteu o livro à apreciação, ao confronto de vários médiuns para o reexame dos assuntos tratados.

Nós sabemos que esse livro foi escrito sem que Kardec soubesse que estava escrevendo um livro. Kardec, ao pesquisar os fenômenos, vendo a manifestação dos espíritos, ele estabeleceu conversação com os espíritos. Ele partiu do seguinte princípio: se existe um mundo espiritual e se nós queremos, aqui da Terra, tomar conhecimento desse mundo, temos de consultar os seus habitantes. É através deles que nós vamos realmente saber como é esse mundo.

E ele começou a fazer perguntas aos espíritos. Mas essas perguntas tinham apenas uma finalidade, era para ele se enfronhar do assunto. Ele queria conhecer o problema pessoalmente, individualmente. Então, ele fazia sempre um formulário de perguntas que levava às reuniões. As reuniões se passavam na casa de um senhor parisiense, uma pequena família do Senhor Baudin, onde se reuniam alguns amigos. Mas quando Kardec chegou lá, para assistir às primeiras manifestações, essas reuniões eram praticamente frívolas. Faziam-se as perguntas mais absurdas aos espíritos, perguntas corriqueiras, perguntas interesseiras de toda espécie. E Kardec foi observando aquilo.

Havia um espírito que dava o nome de Zéfiro. Zéfiro, como nós sabemos quer dizer “uma brisa”, “um vento leve”. E então ele dava esse nome, parece que de propósito. Era um nome simbólico, Zéfiro. Quer dizer ele era um espírito inconsequente, leviano, respondia a tudo. Tudo que se perguntava, ele respondia. Mas Kardec notou que havia nesse espírito uma seriedade que ele não deixava transparecer. Esta seriedade era o seguinte: quando se perguntava alguma coisa frívola, ele respondia, mas de uma maneira que dava uma lição a quem perguntava. Quer dizer, respondia, satisfazia, mas também advertia, fazia ver que aquelas perguntas não eram muito apropriadas, o interesse da reunião não era esse. Então Kardec resolveu fazer um novo tipo de perguntas, porque interessava a ele, precisamente, o conhecimento do mundo espiritual. E ele começou a trazer aquelas listas de perguntas novas formuladas, aquelas perguntas sérias. O espírito passou a responder com absoluta seriedade.

Então, a conclusão a que chegaram vários estudiosos de Espiritismo, e o próprio Kardec deixa transparecer isso nas suas notas, a conclusão foi a de que este espírito Zéfiro era um espírito elevado, mas que estava ali preparando o ambiente para Kardec chegar. Então ele tinha de entreter aquela gente, tinha de prendê-los com alguma coisa. E como o que interessava a eles eram só frivolidades, ele entregava a frivolidade, mas dando sempre uma maneira de, tirando as pessoas desse plano e levá-las para os assuntos sérios. Quando Kardec chegou e observou aquilo, e começou a fazer perguntas sérias, o ambiente mudou completamente. Dali por diante, ninguém mais fazia perguntas frívolas porque viram que as perguntas de Kardec eram muito sérias e que a reunião subiu de nível, as respostas eram todas sérias também. Kardec discutia com o espírito, o espírito dava uma informação, ele muitas vezes não concordava, discutia. E dessa maneira é que o livro foi sendo escrito.

Até que chegou um dia em que um espírito manifestou-se, que não era propriamente o Zéfiro (ou parecia não ser) e disse a Kardec que aquelas anotações que ele estava fazendo não eram para ele só, eram para ser publicadas. Essas anotações deviam constituir um livro que tinha de ser publicado, iniciando uma doutrina séria que ia tratar dos problemas espirituais. Então Kardec ficou um tanto atrapalhado com aquilo e disse “mas eu não pretendia fazer isso, eu estou fazendo...” E foi assim que nasceu O Livro dos Espíritos. Dessas anotações, Kardec, então, começou a revisá-las, a estudá-las com calma. E começou a receber na sua própria casa (no seu gabinete de trabalho, na hora em que ele estava revisando o que havia recebido), a receber sinais tiptológicos, pancadas na mesa, na parede, que o advertiam quando tinha alguma coisa a corrigir, quando estava bom. Tudo quanto ele fazia, era sempre vigiado pelos espíritos. Dali por diante ele prosseguiu e fez O Livro dos Espíritos. Quando nós lemos O Livro dos Espíritos hoje, quando nós examinamos esse livro com atenção, nós vemos que ele é um verdadeiro tratado filosófico. Um tratado filosófico escrito em linguagem simples, acessível, didática, não é em linguagem filosófica. Muita gente diz às vezes: “O Livro dos Espíritos não é filosófico, porque a Filosofia tem a sua linguagem própria e esse livro não usa essa linguagem. A filosofia tem um método de indagação que é mais profundo e minucioso do que aquele que Kardec usou.” Entretanto é preciso lembrar que a filosofia não se cinge, não se restringe sempre a um determinado sistema.

Por exemplo, quando Descartes publicou O Discurso do Método que, como nós sabemos, é um livro que abriu uma nova era no pensamento e, mesmo, na filosofia e nas ciências. O Discurso no Método, Descartes devia escrever esse livro, de acordo com o sistema adotado até aquele momento, devia escrevê-lo em latim e, no entanto, ele o escreveu em francês. E escreveu num francês claro, corrente, popular, para dar maior comunicabilidade. De tal maneira que muita gente lê hoje, O Discurso do Método, e diz assim: “bom, falam tanto desse livro e não estou achando nada”. Porque que o livro parece que não tem nada, ele flui tranquilamente, você vai lendo aquilo com facilidade. Parece que se entendeu tudo, mas não se está entendendo. Então nós temos um exemplo assim como esse de Descartes, que foi o que Kardec fez também, Kardec usou esse mesmo processo. Ele procurou traduzir as coisas mais sérias e mais graves da maneira mais clara possível e mais simples. E os espíritos usaram, com ele, o mesmo processo. Aliás, pode se ver, logo no início do Livro dos Espíritos, naquela mensagem inicial, que os espíritos dizem que era necessário apresentar ao mundo uma filosofia "livre dos prejuízos do espírito de sistema". Por quê? Porque o espírito de sistema era um espírito que complicava as coisas. A sistemática filosófica é complexa, é complicada.

Ora, quando nós queremos enfrentar um problema com clareza, precisamos muitas vezes usar uma terminologia apropriada. Porque a terminologia de uma ciência ou de um determinado campo do conhecimento, como a teologia, como a filosofia, essa terminologia tem um conteúdo próprio. Não é que os termos sejam empregados por pedantismo ou por vontade de complicar. É que não há termos que substituam. Às vezes, vai se dizer uma coisa e tem de dizer aquela palavra. Mas quando se usa isso em excesso e se cria uma sistemática que chega mesmo a criar uma barreira para os que não conhecem o problema, o assunto, por exemplo, a filosofia ou a ciência, então fica difícil de se explicar as coisas de maneira mais popular. Então, Kardec passou por cima disso, ele reduziu tudo a uma linguagem didática, ele era um professor, ele apresentou numa linguagem didática. Aliás, eu acho que é uma das coisas mais extraordinárias que ele fez. Porque conseguir colocar, embora com o auxílio dos espíritos, todos os problemas que ele colocou numa linguagem tão acessível como ele fez, é muito difícil. É muito difícil de se conseguir. E ele fez isso com facilidade. E lá por 1856, ele já estava com o livro concluído.

Mas os espíritos disseram a ele: agora submeta esse livro ao exame. Primeiro, ele conferiu o livro com os espíritos que ditaram as respostas. Depois os espíritos disseram, submeta este livro ao exame de outros médiuns. E Kardec diz que ele chegou a consultar cerca de dez médiuns para examinarem, com ele, juntamente, através da mediunidade, recebendo espíritos diversos para opinarem sobre aquilo.

Quando falamos de espíritos diversos, é preciso lembrar que Kardec tinha um método para falar com os espíritos. Aliás, nós encontramos isso no próprio Livro dos Espíritos e no Livro dos Médiuns. Ele tem mesmo tópicos especiais sobre como falar com os espíritos. Kardec estudou, nesse mesmo trabalho, a linguagem dos espíritos: a maneira com que eles nos falam, o que nós devemos perguntar aos espíritos, o que podemos perguntar e o que não devemos ou não podemos. E ao mesmo tempo ele mostrou que há uma certa distância entre os espíritos e nós. Uma certa distância que não é a distância física, mas que é uma distância de entendimento, de compreensão, de posição, de posição mental. Por exemplo, Kardec diz assim: “Às vezes, eu pergunto uma coisa ao espírito e o espírito me responde. Mas a resposta dele não me satisfaz. Então eu tenho de perguntar de novo, eu insisto com ele.” Por quê? Por que o espírito está respondendo de um outro plano. O espírito não está no nosso mundo, ele está num outro plano. A mente dele está numa posição muito diferente da nossa. Nós estamos com a nossa mente integrada num cérebro funcionando dentro de certas condições. A mente do espírito está livre. Então o espírito responde de acordo com o que ele espírito pensa, do que ele entendeu a pergunta. Mas se nós achamos que a resposta não satisfez então insistimos com ele, procurando colocar o assunto numa sintonia da nossa mente com a mente do espírito. Daí, a resposta vem exata. Quer dizer, estou me referindo a isso apenas para se ver as minúcias a que Kardec chegou no estudo, na pesquisa do Espiritismo.

E concluído o livro, submetido a esses médiuns, cada espírito que se comunicava para atender à pergunta de Kardec já era, naturalmente, um espírito elevado. Porque a simples posição de Kardec, como o Codificador do Espiritismo, já determinava a sua ligação com os espíritos designados para auxiliarem o desenvolvimento do Espiritismo na Terra. Dessa maneira esses espíritos eram elevados, mas Kardec sempre os testava. Kardec sempre queria ver se o espírito tinha condições para realmente realizar o trabalho, junto com ele. E assim, o livro foi se formando, se desenvolvendo e se completou. Mas os espíritos disseram a ele: publique a primeira edição, não inclua tudo quanto você pensou de incluir. Há partes que devem ficar de lado e essas partes virão depois. De fato, Kardec fez uma seleção por indicação dos próprios espíritos. E lançou a primeira edição de O Livro dos Espíritos. Depois quando foi na segunda edição, os espíritos mandaram incluir as partes que tinham deixado de lado. Havia problemas que não podiam ser tratados assim diretamente, imediatamente.

Um desses problemas é o da origem do homem. Era um problema muito controvertido naquele tempo, havia muitas discussões, havia lutas religiosas em torno do assunto. Então este problema, por exemplo, nós vemos no Livro dos Espíritos e não encontramos definido. Kardec, mesmo na segunda edição, teve cuidado com ele. Então ele deu duas teorias e deixa mais ou menos em suspense. Somente no livro A Gênese, que foi o último livro da Codificação, é que esse problema vai ser definido. Quer dizer, foi necessário deixar que o movimento espírita se desenvolvesse, e que houvesse muito estudo e muitas discussões a respeito dos problemas espíritas, para se criar o ambiente necessário à definição do problema.

Entretanto, as pessoas que se assustaram quando viram, na Gênese, aquela definição do problema, de que o homem veio da evolução. E de uma evolução que vem do reino mineral até o reino angelical. Muita gente se assustou com isso. Então era o momento em que, tanto Kardec, como outros estudiosos, diziam simplesmente, vejam no Livro dos Espíritos, pergunta tal e veja a resposta. De fato, lá no Livro dos Espíritos, já estava aquilo. Mas estava de uma maneira tão sintética, que muita gente não percebia. Quer dizer, ele deixou já escorado, por assim dizer, aquilo que ia dizer mais tarde, mas foi dando progressivamente. Então, nós precisamos, primeiro, nos lembrar disso. A Codificação do Espiritismo foi um trabalho progressivo. Ela não veio de chofre, não vieram todos os livros para serem publicados imediatamente. Eles foram sendo publicados aos poucos. Primeiro saiu O Livro dos Espíritos. Este Livro dos Espíritos é a obra básica fundamental. Mas esta obra, justamente por ser uma obra básica fundamental, ela é sintética. Ela apresenta todos os problemas da doutrina, todos estão neste livro. Mas estão de maneira sintética, não estão num plano de análise, de esmiuçamento do problema.

Então Kardec depois foi desdobrando o livro em outros. Por exemplo, depois de O Livro dos Espíritos, ele soltou um pequeno livro, O que é o Espiritismo. Não é propriamente um volume da Codificação. O que é o Espiritismo é um livro para iniciação, um livro para iniciar as pessoas no Espiritismo. Nós sabemos que ele se divide em duas partes. Uma parte é o que podemos chamar, a primeira parte é um debate, uma discussão. Então, Kardec apresenta as discussões dele... Não, não é um livro forjado. Realmente Kardec teve muitos debates, muitas discussões com muitas pessoas. Então ele anotou aqueles assuntos principais que eram debatidos. As argumentações usadas pelos contraditores do Espiritismo, as contestações feitas. E Kardec reuniu tudo aquilo para depois publicar também, porque ele achou interessante. Até ele diz, mesmo, que eram tantas perguntas que faziam para ele, que ele já ia publicar aquilo porque muitas respostas já estavam ali, já tinham sido dadas. Então, nós temos ali a discussão dele com o cético, a discussão com o padre, a discussão com uma pessoa, com um materialista e outras assim. Não me lembro bem a sequência. A primeira parte do O que é o Espiritismo, que é um livro pequeno, tem só discussões de Kardec com essas pessoas que contradiziam o Espiritismo, que queriam saber o que é o Espiritismo. A segunda parte é um trabalho de Kardec de iniciação no Espiritismo. Então ele expõe a doutrina não mais em forma de debate. De maneira didática, ensinando o que é a doutrina. Essa segunda parte é que deu origem ao livro chamado O Principiante Espírita. Esse livro não existe como livro independente, é a segunda parte do livro O que é o Espiritismo. Mas a Federação Espírita Brasileira foi quem fez essa separação aqui no Brasil. Ela publicou O que é o Espiritismo total, mas publicou também a segunda parte em separado com o título de O Principiante Espírita. Aliás, a medida foi boa, porque muita gente queria um livrinho pequeno para se informar do assunto, então pegava O Principiante Espírita que é apenas a segunda parte do livro O que é o Espiritismo.

Depois disso, Kardec escreveu um outro livrinho, muito pequeno (tem umas trinta páginas apenas), chamado O Espiritismo na sua Mais Simples Expressão. É um livro maravilhoso porque em poucas páginas ele resumiu, deu uma visão geral da doutrina, de maneira bem popular, era um livro para divulgação mesmo. E depois Kardec escreveu um outro livro também pequeno, chamado Instruções Práticas Sobre as Manifestações Mediúnicas. Um livro que ele, ao publicar O Livro dos Médiuns, ele o considerou superado: “Esse livrinho não precisa mais ser editado, porque agora O Livro dos Médiuns é mais completo”. Mas, passados uns cinquenta e tantos anos da sua publicação, Jean Meyer que era o Presidente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, da “Casa dos Espíritas de Paris”, como deram o nome depois à sociedade. Jean Meyer resolveu editar de novo aquele livrinho de Kardec, Instruções Práticas sobre as Manifestações Mediúnicas. Porque O Livro dos Médiuns, por ser uma espécie de um tratado, um livro grande, muita gente achava difícil de ler. Então queriam um livro menor e, com isso, começaram a aparecer pessoas que faziam resumo de O Livro dos Médiuns e divulgavam. E aqueles resumos iam sendo lidos, mas eram resumos insuficientes, não davam conhecimentos precisos e, principalmente, os conhecimentos básicos necessários da mediunidade, os livros não davam.

Até hoje, existem muitos livrinhos assim querendo substituir O Livro dos Médiuns. Então Jean Meyer disse: “olha, em vez de estarmos enfrentando esse problema desses pequenos livros, vamos reeditar o livro de Kardec, esse pequeno livro, porque é um resumo prévio”. Kardec publicou esse livrinho e logo em seguida ele fez O Livro dos Médiuns. E este livro ficou sendo um resumo antecipado de O Livro dos Médiuns, e um resumo substancioso, bem organizado. Então, este livrinho também é um livro importante para iniciação. A iniciação teórica, nós temos no Espiritismo na sua Mais Simples Expressão, no O Que é o Espiritismo, temos a iniciação teórica. E nas Instruções Práticas sobre as Manifestações Mediúnicas, a iniciação prática para a realização das sessões e a prática da mediunidade. Com esses livros, então, esse livrinhos iniciais, nós temos os trabalhos introdutórios de Kardec para introduzir as pessoas no estudo da doutrina. Mas faltava desenvolver o Espiritismo, a doutrina que estava no Livro dos Espíritos.

Kardec começou a desenvolvê-la. De que maneira?

O primeiro livro a seguir ao Livro dos Espíritos foi O Livro dos Médiuns. Aliás, O Livro dos Médiuns traz uma indicação abaixo do título que diz assim: continuação do Livro dos Espíritos. Porque é realmente uma continuação. No Livro dos Médiuns, Kardec desenvolveu o aspecto da mediunidade que está no Livro dos Espíritos. O Livro dos Espíritos tratou das comunicações, da mediunidade, da maneira por que são dadas as comunicações. Mas aquilo que está no Livro dos Espíritos é apenas uma indicação, que depois vai ser desenvolvida no Livro dos Médiuns. Então O Livro dos Médiuns aprofunda o estudo da mediunidade e, principalmente, o estudo da maneira por que os espíritos se comunicam. Nós encontramos ali, bem esclarecido, todo esse processo. É um desenvolvimento, portanto do Livro dos Espíritos.

Em seguida ao Livro dos Médiuns nós temos o evangelho, O Evangelho Segundo o Espiritismo. O Evangelho já desenvolve um outro aspecto do Livro dos Espíritos: é o aspecto religioso. Por aí, já se vê a variedade que O Livro dos Espíritos contém, a grande quantidade de matéria. O aspecto religioso do Livro dos Espíritos é desenvolvido no Evangelho Segundo o Espiritismo. A primeira edição deste livro teve como título Imitação do Evangelho Segundo o Espiritismo...

... Depois Kardec analisando o assunto disse: “Não estamos imitando o Evangelho, não é isso que nós fazemos. Nós estamos interpretando o Evangelho, de acordo com os esclarecimentos dados pela Doutrina Espírita. Então na verdade o título certo é O Evangelho Segundo o Espiritismo.” Que foi o título que ele deu, na segunda edição, e continuou a sair assim. Neste livro, o desenvolvimento do aspecto religioso do Espiritismo é muito importante, pelo seguinte. Neste livrinho O que é o Espiritismo, nós encontramos uma definição de Kardec sobre o Espiritismo. E ao mesmo tempo ele diz assim: “que o Espiritismo não vinha para ser uma nova religião, o Espiritismo vinha com a finalidade de auxiliar as religiões”. Por quê? Porque, naquele tempo, meados do século passado, o desenvolvimento das ciências tinha tido um grande incremento no século XVIII. O século XVIII foi mesmo chamado o “século de ouro das ciências”, porque foi [de] um grande desenvolvimento científico. O desenvolvimento das ciências estava, por assim dizer, fazendo com que as religiões se sentissem abaladas. E as religiões não tinham condições para reagir contra aquilo. As igrejas se despovoavam. O interesse pela ciência era muito maior do que o interesse pela religião. E quando nós nos dirigíamos, por exemplo, a uma igreja, o que encontrávamos era sempre o povo, mas as pessoas de maior cultura, de maior conhecimento, mais voltadas para estudos, já se afastaram das igrejas, não estavam se interessando. Porque os dogmas fundamentais das religiões, os princípios que consideravam muitas coisas como misteriosas, inacessíveis à compreensão, estavam sendo destruídos pelo avanço da ciência. A ciência estava trazendo esclarecimentos que faziam com que as religiões fossem realmente abaladas.

Então, nesse processo, Kardec entendeu que o Espiritismo surgia como uma ciência nova, uma ciência que vinha tratar do espírito. Assim como as ciências, em geral, tratam dos problemas da matéria, e ele dizia isto muito bem: cada ciência trata de um aspecto do mundo material, mas nenhuma delas trata do espírito. Havia, naturalmente, a Psicologia, que devia tratar dos problemas do espírito. Mas a Psicologia já estava entrando também no campo experimental, no campo de pesquisa. E estava a caminho daquilo que ela veio a ser. Quer dizer, hoje, por exemplo, a Psicologia é considerada a ciência do comportamento. Não é mais a ciência da alma, é a ciência do comportamento. A ciência da maneira porque as pessoas se comportam na vida. E, portanto, a pesquisa das relações do indivíduo com o meio em que ele vive, com a sociedade, com o mundo.

Ora, Kardec então entendeu: está faltando a ciência do espírito. E realmente estava. E a ciência do espírito é o Espiritismo. É a ciência pela qual nós pesquisamos o espírito e procuramos esclarecer o problema do espírito, à luz da razão. Ora, sendo assim, a ciência espírita não deve se transformar numa religião, ela deve auxiliar as religiões. Ele dizia mesmo o seguinte: “As religiões estão diante das ciências numa situação muito difícil, porque elas não têm armas para lutar contra a ciência. A ciência está avançando na conquista da Natureza. Ela está investigando, está pesquisando, está trazendo a realidade das coisas ao conhecimento do homem. E as religiões ficam encasteladas nos seus dogmas, não saem dali. Então elas não têm condições para enfrentar.” Isto, para Kardec, era um prejuízo muito grande para a Humanidade. Ele dizia: a Humanidade vai ficar dividida em dois campos – o campo dos cientistas e o campo dos religiosos. Porque o homem é religioso naturalmente, o homem é essencialmente religioso. Porque ele é um espírito que traz consigo as reminiscências do mundo espiritual de que ele veio. Ele tem as suas aspirações espirituais profundas, que se realizam no campo da religião. Então, é necessário que cuidemos disso para evitar que a Humanidade seja desviada do seu processo natural de desenvolvimento. É preciso que ela se desenvolva intelectualmente, mas também afetivamente. É preciso que desenvolva os seus sentimentos também.

[N]O problema da inteligência, ligado ao problema da moral, é preciso que haja o equilíbrio. E Kardec não queria fazer do Espiritismo, uma religião. Neste livrinho, ele declara isso. As edições atuais reproduzem o texto primitivo de Kardec, lá está a declaração de Kardec: “O Espiritismo é o maior auxiliar das religiões, ele vem trazer às religiões, as armas de que elas não dispõem”.

Por exemplo, a religião diz que existe a alma, diz que nós somos espíritos, que nós morremos e continuamos vivos em espírito. Mas a religião não prova isso, a religião não pode provar isto, isto é apenas uma afirmação dogmática. Ora, diz Kardec: “O Espiritismo prova.” O Espiritismo, inclusive, pode provar isto em pesquisa de laboratório. Como de fato os cientistas começaram a pesquisar o Espiritismo, através dos médiuns em pesquisas de laboratório, e verificaram a manifestação da alma através de fenômenos físicos evidentes. Não apenas os fenômenos de movimentação de objetos, mas também os fenômenos principalmente de materialização, de voz direta, de escrita direta. Fenômenos em que os espíritos atuam sobre a matéria e demonstram a sua realidade. Então diz Kardec: “o Espiritismo leva a todas as religiões, essas armas que colocam as religiões na mesma posição das ciências”. Nós vamos então enfrentar a ciência, dizia Kardec, no mesmo campo em que a ciência trabalha e com as mesmas armas. A ciência usa as armas da pesquisa, da experimentação. Nós vamos usar estas mesmas armas e vamos provar que a religião está com a verdade. Mas as religiões como nós sabemos, como tudo no mundo, desenvolvem-se de acordo com as necessidades de certas épocas, de certos tempos. E de tempo para tempo, as religiões modificam-se, mas lentamente, adaptando-se mais ou menos às condições necessárias. Aconteceu que as religiões constituem, como nós sabemos, um elemento de aglutinação social. Cada nação, cada país, cada raça, cada povo tinha a sua religião. Esta religião era um elemento de aglutinação. Um elemento que unia o povo, ligava todos num pensamento único e permitia maior unificação das criaturas dentro do sistema religioso. Então, as religiões naturalmente divergiam entre si, como ainda hoje, como nós sabemos. Hoje a evolução já mostrou que essa sistemática quase localizante, localizando a religião num determinado povo, ela foi superada pelo cosmopolitismo a que o mundo foi levado com o desenvolvimento das comunicações, dos transportes, de tudo quanto modificou aquela situação estática da Humanidade nos tempos anteriores.

Então as religiões não puderam aceitar isso. Porque o Espiritismo surgia tocando nos pontos essenciais da religião. A existência de Deus, a sobrevivência da alma, a situação do espírito depois da morte, o problema da reencarnação (que foi um problema difícil de ser colocado). Todos esses problemas davam assim, ao Espiritismo, um colorido de religião. E as religiões reagiram, reagiram violentamente. No começo, no tempo de Kardec, havia espíritas católicos, espíritas protestantes, espíritas judeus, espíritas de todas as religiões. Mas aconteceu que as religiões começaram a expulsar de seu seio, aqueles de seus adeptos que aceitavam o Espiritismo. Então foi o momento que Kardec disse: “Bom, nós tentamos, nós quisemos levar, às religiões, as armas de que elas necessitavam e não possuíam. Entretanto as religiões não aceitaram e, além de não aceitarem, não permitem que os seus adeptos aceitem também essas armas.” Quer dizer, os espíritas chegaram a tal ponto que eles tiveram que tomar o seu próprio caminho. Quer dizer, tem de haver então, a religião espírita. E foi aí que ele passou a elaborar O Evangelho Segundo o Espiritismo. Então este é o livro básico da religião espírita, O Evangelho Segundo o Espiritismo, mas sempre com suas ligações com O Livro dos Espíritos. Cada livro da Codificação está ligado a este livro, ao livro fundamental.

E no desenvolvimento do Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec mostrou a ligação necessária do Espiritismo com o cristianismo. Quer dizer, o cristianismo é um processo histórico, um processo único. Ele vem do judaísmo, de onde nasceu. Podemos dizer que o cristianismo é uma reforma do judaísmo. Jesus nasceu judeu, cresceu judeu, educado no judaísmo. Mas quando ele se tornou capaz de executar a sua missão como criatura humana, ele teve que se sujeitar, como todos os espíritos, ao nascerem na Terra, num corpo humano, têm que se sujeitar às leis biológicas, fisiológicas, ao desenvolvimento do corpo. Quando ele atingiu aquele ponto em que, não só ele estava capaz de pregar, mas, também, ele já havia adquirido o entrosamento necessário na cultura do seu tempo e do seu povo, ele começou a reformar o judaísmo. Nós sabemos que o fato da morte, do sacrifício de Jesus, decorre disso: foi um transformador religioso contra o qual os judeus reagiram. E naturalmente o consideraram um elemento nefasto e, por isso, o crucificaram. Então, do judaísmo nasce o cristianismo. Por que do judaísmo? Nós estávamos numa época puramente mitológica no tempo de Jesus. Todas as religiões do mundo eram de fundo mitológico, eram religiões míticas, baseadas em mitos, todas elas. Entretanto a religião judaica que também era mitológica no início, ela evoluiu mais rapidamente do que as outras. Ela chegou a um ponto em que os mitos foram substituídos pelas manifestações dos espíritos. Por exemplo, Jeová ou Iavé, o deus supremo dos judeus, ele era um deus que falava com o seu povo, que se manifestava. Mas o mais importante, no caso do judaísmo, é que este Jeová ou Iavé era considerado o deus único, o deus supremo.

Ora, alcançar a compreensão da unidade do Universo é um grande avanço na evolução da mente, do espírito humano. Só através de um grande avanço se chega a essa compreensão. O politeísmo, baseado na mitologia, com seus múltiplos deuses, seus muitos deuses, o politeísmo apresentava uma concepção fragmentária do Universo. Quer dizer, encarava-se o universo como uma série de ocorrências, de fenômenos que não teriam ligações entre si, que eram díspares, que não se uniam, não se juntavam. Daí, cada setor da Natureza parecer como tendo um deus que o governava. E a multiplicidade dos deuses representava a falta de unidade do espírito humano. Quer dizer, o espírito humano ainda não estava suficientemente unificado na sua evolução, para mostrar uma individualização espiritual profunda, capaz de ter uma ideia geral do Universo de uma forma unitária. Entretanto com os judeus apareceu isto. Os judeus foram o primeiro povo na história das religiões no mundo a aceitar o monoteísmo.

Mas não foi fácil não, a gente lendo a Bíblia vê a luta de Moisés para fazer com que eles aceitassem o monoteísmo. Foi mesmo até imposto, vamos dizer que imposto até à força, para que eles pudessem realmente aceitar. O episódio do bezerro de ouro nas fraldas do Sinai, enquanto Moisés recebia as tábuas da lei, é uma prova da luta tremenda que Moisés teve de ter para conduzir o povo judeu ao monoteísmo. Mas ele conseguiu.

Então... A condição monoteísta do povo judeu era uma condição essencial para que Jesus nascesse ali e, dali, ele pudesse partir para a sua mensagem, que era uma mensagem nova, baseada na unicidade de Deus.

Então, do judaísmo nós passamos para o cristianismo. O cristianismo é a realização daquela ideia da unidade de Deus que havia entre os judeus, mas que não tinha eficácia no sentido de propagação para o mundo. Por que não tinha eficácia? Porque o povo judeu, com a sua religião, estava isolado de todos os demais povos. Havia, como há, a ideia que ainda hoje há entre os judeus, a ideia de separatividade racial bem arraigada. Podemos dizer que a religião judaica foi talvez uma das mais poderosas, no sentido de conseguir aglutinar a estrutura social de um povo. Porque mesmo depois que os judeus foram expulsos da sua terra, ficaram sem pátria e sem terra, eles continuaram unidos através da religião, a religião foi a grande força que os uniu, que os manteve unidos. Então, o conteúdo de energia suficiente para unir o povo, que o judaísmo possuía, era enorme, era um poder imenso. Ora, esse poder imenso não podia ser propagado porque os judeus se fechavam entre si. Havia o conceito de pureza e de impureza. Eram puros os Filhos de Israel; eram impuros, os outros povos. Assim como também, para os romanos, por exemplo, eles eram civilizados, os outros eram bárbaros. Os gregos, a mesma coisa. Mas Israel chegava a um ponto máximo, a tal ponto de considerar os outros como impuros, somente eles eram puros. E essa divisão, de puros e impuros, não permitia a divulgação do monoteísmo. Os judeus ficavam isolados.

Jesus rompeu com isso porque ele reformou o judaísmo, mostrando que tudo aquilo que correspondia aos sistemas antigos da raça não podia continuar. Era preciso modificar tudo para dar um sentido universal à mensagem judaica. Os judeus não foram capazes de entender isso. É um processo histórico que vem do mundo espiritual, influindo sobre um povo que estava em condições de ajudar o desenvolvimento da evolução humana. Mas eles não foram capazes de compreender.

Eles esperavam o advento do Cristo, como uma entidade que viria à Terra para lhes dar a supremacia sobre todo mundo e o poder sobre todas as nações. As Doze Tribos de Israel seriam então estendidas por toda a Terra, todos os povos seriam subjugados e convertidos nas doze tribos, para que eles pudessem dominar o mundo. Eles não entendiam o sentido espiritual desse ensino, que lhes havia sido dado pela revelação mosaica. Entretanto, Jesus, com a sua simplicidade, ele transmitiu ao povo mensagem nova. E ensinou que não era através de um domínio material mas, sim, de um domínio espiritual, da propagação de uma ideia, que [se] devia transformar o mundo que os judeus sabiam que ia atingir a universalidade. Mas para isso era preciso romper com aquela estagnação, com aquele isolamento dos judeus. Era preciso a comunicação com todos. E daí, Jesus apresentar Jeová ou Iavé, já não mais como o “deus dos exércitos” que está lá na Bíblia, mas como Pai. Pai não apenas dele, Pai de todos os homens, Pai de todas as criaturas. Quer dizer, ao usar essa palavra “pai”, Jesus quebrou totalmente o isolamento dos judeus. Ele mostrou que Deus, sendo pai de todas as criaturas, não havia mais razão para discriminações. Todos eram iguais perante Deus. Porque Deus, como pai muito superior aos pais humanos, o que ele diz constantemente no Evangelho, muito superior aos pais humanos... um Deus que é a paternidade de todas as criaturas faz, naturalmente, a fraternidade de todos os povos. Então, temos a passagem do judaísmo para o cristianismo.

Mas o cristianismo, no seu desenvolvimento, ainda não teve condições suficientes para fazer aquilo que estava programado dentro do processo cristão, do processo de desenvolvimento do cristianismo. Por quê? Porque o cristianismo, para se desenvolver – e isto é um processo histórico, não queremos aqui dizer que foram forças políticas, religiosas que impediram. É um processo histórico que é difícil mesmo de se realizar, tem o seus empecilhos pela frente e os seus empecilhos tem ser vencidos lentamente. O cristianismo, para atingir os seus objetivos, ele tinha que se espalhar, que ser divulgado e penetrar o mundo. É aquela parábola do fermento, da medida de fermento, de uma porção de fermento na medida de farinha. Põe o fermento para levedar a farinha, levedar a massa. Então, o fermento tem de penetrar na farinha. Então o cristianismo tinha de penetrar no mundo. Daí a dispersão dos apóstolos pelo mundo em sua pregação, o trabalho imenso de Paulo, que foi um trabalho fundamental para a divulgação do cristianismo. Mas ao mesmo tempo, o cristianismo, que era até o tempo de Paulo uma espécie de seita judaica, ficou sendo uma seita, uma seita judaica que realizava suas reuniões nas sinagogas, que exigia das pessoas que queriam se tornar cristãs que, primeiro, se tornassem judias para, depois, poderem ser cristãs. Esse cristianismo foi completamente modificado pelo trabalho de Paulo. Porque Jesus, como nós sabemos, foi buscar Paulo na estrada de Damasco e não esperou que ninguém ensinasse a Paulo, ele ensinou Paulo diretamente, como o próprio apóstolo Paulo disse, o Evangelho. Tanto que ele não voltou a Jerusalém para aprender, com os apóstolos, o Evangelho. Ele, ainda de Damasco, foi ao deserto e lá ele ficou meditando. E depois ele voltou para trabalhar e começou a pregar. E foi a Jerusalém mostrar para os apóstolos que ele conhecia o Evangelho.

Quer dizer, o Evangelho lhe foi dado diretamente por Jesus. Por quê? Porque Paulo era o espírito que estava em melhores condições, naquela época, para liderar esse trabalho. Então eles conseguiram levar esse cristianismo a todos os povos. Paulo retirou a igreja cristã de dentro das sinagogas. "Igreja", naquele tempo, era o que se entendia por "assembleia, o conjunto de pessoas", como é o significado da palavra. Um conjunto de pessoas que têm a mesma fé, que têm o mesmo interesse religioso, então se reúnem, é uma igreja. Mas a finalidade não era construir uma igreja, no sentido das igrejas mitológicas existentes. Então, nós vemos, na história do cristianismo, que, até o final do quarto século, as reuniões cristãs eram feitas assim, como nós estamos aqui. Feitas em locais simples, salas alugadas, locais sem nenhuma suntuosidade arquitetônica, nem interior. Nas igrejas cristãs não havia altares, não havia imagens, mesmo porque os judeus, como sabemos não admitiam a existência de ídolos. Eles eram contra os ídolos e o cristianismo também era assim. Nas igrejas cristãs realizava-se o culto, o culto do espírito – o culto do pneuma, como diziam do ponto de vista dos gregos. O culto do espírito. E esse culto do espírito era feito através da mediunidade. Nós podemos ver isto principalmente na I Epístola de Paulo aos Coríntios, onde ele trata dos dons espirituais, em que ele descreve praticamente uma sessão mediúnica. Uma sessão mediúnica dos apóstolos, mostrando como os médiuns deviam se portar à mesa, como falar, como dar as suas mensagens, como exercitar os seus dons especiais. E chega mesmo a dizer, ao tratar da mediunidade de xenoglossia (ou seja, a mediunidade de línguas, de falar línguas estranhas), ele chega a advertir que aqueles médiuns que vão falar numa língua estranha, que prestem atenção se existem, ali na reunião, pessoas capazes de compreender e de traduzir a sua mensagem. Se não existir, ele diz que não deem a mensagem. Tudo perfeitamente prescrito, mostrando que eles conheciam muito bem o problema da mediunidade e das comunicações mediúnicas, das comunicações espirituais. E não é só Paulo que diz isso. Nós sabemos que Pedro também trata deste assunto na sua Epístola e em várias outras passagens do Novo Testamento. Há referências a essas comunicações.

Ora, assim sendo, as igrejas eram simples. Não tinham nada do que caracterizava as outras igrejas. Mas o cristianismo foi propagando, foi aumentando, foi conseguindo mais adeptos. Os adeptos traziam pra dentro da igreja os seus resíduos de outras religiões, os seus costumes e queriam que ali também se fizesse alguma coisa semelhante àquilo que se passava nas outras religiões.

A partir do final do quarto século, já começavam a ser introduzidos os altares nas igrejas cristãs. Depois, passou-se a estabelecer a cerimônia do culto, já não era mais um minuto simples de prece, de oração, de cânticos e de comunicações mediúnicas. Já começaram a se criar as complicações rituais. Ao mesmo tempo, assim como os sacerdotes das religiões pagãs vestiam-se de púrpura, de ouro e apresentavam-se de maneira grandiosa diante dos seus adeptos. Então perguntavam os cristãos: por quê? Eles que estão representando deuses falsos se apresentam dessa maneira. E nós, que estamos representando o Deus verdadeiro, não nos revestimos de nada? E começaram a se revestir também. Então as vestimentas dos prelados, daqueles que deviam dirigir o culto, começaram a ser copiadas das religiões pagãs. E há mesmo estudos muito curiosos a respeito disto, mostrando pormenores bastante interessantes. A tonsura do padre, a coroa do padre católico, ela representa o Sol. Representa o Sol, por quê? Influência da religião de Mitra, o deus solar e que dominava grande parte do império. Esta religião baseava-se na adoração ao Sol. Os sacerdotes de Mitra traziam a coroa na cabeça, que era para mostrar que eles eram adoradores do Sol. Eles tinham o disco solar na cabeça, até isso foi adotado. As vestimentas mesmo, por exemplo, a batina também, a batina preta que era típica de uma religião oriental usada em Roma, também foi adotada. E assim, uma porção não só de rituais, como de vestimentas sacerdotais, aparatos do altar, tudo isto foi copiado das religiões pagãs.

O processo foi se desenvolvendo. Havia um interesse muito grande, por exemplo, de converter uma cidade, converter uma cidade ao cristianismo. Mas para converter essa cidade, era preciso usar certa estratégia, era preciso ter tática. Então se fazia o seguinte. Um exemplo muito curioso é o exemplo da catedral de Notre Dame, em Paris. A catedral de Notre Dame era uma igreja modesta, pequena, dedicada a uma deusa mitológica. E ali o povo acorria, fazer suas preces. Havia procissões, as procissões eram muito comuns nas religiões mitológicas. Faziam-se todos os rituais ali, naquela igrejinha. Pois bem, quando os cristãos conseguiram um grande número de adeptos em Paris, eles tomaram conta desta igreja e a transformaram em Igreja de Nossa Senhora. Quer dizer, eles conservavam sempre uma atitude correspondente àquela, por exemplo, era a igreja de uma deusa, então puseram Nossa Senhora no lugar da deusa.

Quando era a igreja de um deus, punha-se Jesus no lugar, porque era um deus cristão que vinha substituir o deus pagão. Até hoje na catedral de Notre Dame existem, no seu subterrâneo, as ruínas da igreja primitiva que foi transformada em igreja cristã. Mas para fazer esta substituição, eles precisavam também adotar rituais mais ou menos semelhantes, para poder manter o povo vindo para ali, afluência de povo, a substituição tinha essa finalidade. Isto tudo é que foi transformando o cristianismo, praticamente, numa religião mitológica também. No fim entraram as imagens. As imagens são geralmente adaptações das imagens pagãs. Há imagens bem típicas, por exemplo: a deusa Ceres era apresentada nas igrejas pagãs como uma deusa que tinha sob os pés um globo, um grande globo. E por que esse globo? Porque ela era a deusa da fecundidade, a deusa que produzia os cereais, as safras, a produção da Terra. E o manto azul, representando o céu, porque ela vinha do céu. Essa imagem de Ceres foi logo adaptada pelo cristianismo e transformada em imagem de Nossa Senhora. E assim a imagem do deus Apolo foi transformada em imagem... [...] A gravação é interrompida nesse ponto.

 

 Tiptologia. Do gr. typto, golpe e logos, discurso. Comunicação através de pancadas ou batidas sobre um material rígido, como a madeira, por exemplo.

O Discurso do Método, também conhecido como O Discurso Sobre o Método, é uma obra escrita pelo filósofo francês René Descartes (1596-1650), publicado pela primeira vez em 1637.

Espírito de sistema. Sobre isso, escreve Herculano: “...não interessava a Kardec formular um sistema filosófico no estilo clássico, aliás, já superado inteiramente hoje em dia, quando se compreende que a verdade não pode ser encerrada na melhor das sistematizações humanas.
Os que não veem filosofia no Espiritismo e não reconhecem a Kardec uma posição filosófica, em virtude de questões puramente formais e, portanto, convencionais, deviam lembrar-se de que Jesus também não formulou um sistema filosófico, ao gosto da época, e que o verdadeiro pai da filosofia grega, Sócrates, também não se interessou por isso. Ernst Casirer, em sua Antropologia Filosófica, acentuando a inconveniência dos sistemas clássicos, declara: ‘Cada teoria se converte num leito de Procusto, em que os fatos empíricos são obrigados a se acomodar a um padrão preconcebido’. Como se vê, a opinião de Kardec, sobre os inconvenientes do ‘espírito de sistema’, é referendada por um dos maiores pensadores atuais.
Herculano então explica: “Na mitologia grega há um mito que se chama Leito de Procusto, que relata o seguinte: ‘Procusto era um bandido que vivia em uma floresta e ele tinha uma imensa cama. Todos os que passavam pela floresta eram presos e colocados por ele em sua cama. Dos que eram muito grandes, Procusto cortava os pés e dos que eram muito pequenos, Procusto os esticava.’ A tamanho da cama era o padrão utilizado por Procusto." (Texto completo no livro O Mistério do Bem e do Mal, de Herculano Pires, Ed. Correio Fraterno)

A primeira edição de O Livro dos Espíritos foi lançada em 18 de abril de 1857 e continha 501 questões. A segunda edição sairia somente em 1860, com 1018 questões e assim ele continua sendo publicado, até hoje.

Parábola do Fermento. Ver Mateus 13:33 e Lucas 13:20-21

Cerimônia religiosa em que o bispo dá um corte no cabelo do ordinando ao conferir-lhe o primeiro grau de Ordem no clero, chamado também de "prima tonsura". Desde o século IV, tornou-se costume entre o clero cortar os cabelos. (Wikipédia)

A princípio, era uma reunião familiar de estudos e mediunidade, que ocorria semanalmente na casa de Virgínia e Herculano Pires. Com o tempo, chegaram os amigos e se juntaram ao grupo.

Quando a família se mudou para a residência da Rua Doutor Bacelar, o imóvel contava com uma garagem que não era utilizada. Conforme o trabalho de Herculano se tornava mais conhecido, aumentava o número de pessoas que vinham procurá-lo, em busca de orientação espírita. Para melhor atender a essa demanda e, ao mesmo tempo, constituir um novo espaço de divulgação espírita, em 1972, o casal deu início às Palestras na Garagem, que eram semanais e dirigidas por Herculano.

Muitas delas foram carinhosamente registradas em fitas cassete pela tia Lourdes (Lourdes Anhaia Ferraz) e pelo Sr. Miguel Grisolia. Agora você pode ler as transcrições dessas gravações, fruto de um trabalho detalhado e paciente de Antonio Leite, da equipe de colaboradores da Fundação. 

SOBRE A QUALIDADE DOS ÁUDIOS: As gravações originais apresentam níveis de qualidade variáveis. Alguns trechos estão quase completamente corrompidos. A linguagem coloquial está mantida nas transcrições. A numeração não segue a ordem cronológica, mas a criação de um índice das mesmas.

 

 

Palestra 2: O Caráter Progressivo da Codificação Espírita

 

Bom, nós vamos continuar um pouquinho ainda naquele problema do estudo da Doutrina. Eu acho muito necessário nós virmos esclarecendo, porque há vários aspectos que nós precisamos nos familiarizar com eles.

Um deles é a natureza progressiva da Codificação. A primeira coisa, que nós precisamos compreender a respeito, é que o Espiritismo não veio assim de um jato, não foi dado como uma espécie de uma revelação divina, que é simplesmente feita por um profeta ou por um messias. O Espiritismo nasceu progressivamente através das manifestações mediúnicas, estudadas e controladas por Kardec. É aquilo que Kardec chama uma “conjugação da revelação divina com a revelação humana”. Ou seja, o trabalho dos espíritos, trazendo informações sobre aquilo que nós não conhecemos aqui na Terra. A vida dos espíritos, a maneira por que eles se comunicam, a maneira por que eles trabalham o nosso mundo, por que eles nos auxiliam e por que aqueles espíritos inferiores podem também nos prejudicar.

Então esta revelação é feita aos poucos, os espíritos vão naturalmente manifestando-se através de fenômenos vários e dando informações na proporção em que Kardec vai fazendo perguntas, Kardec vai se interessando pelo assunto. Este tipo de revelação só poderia surgir, como diz Kardec, no momento em que a humanidade houvesse superado aquela fase de – podemos dizer assim no plano pedagógico – de simples didatismo em que os espíritos reveladores encarnavam-se na Terra na forma de um profeta ou de um mestre espiritual, e ensinavam simplesmente as verdades fundamentais. Essa fase tinha de ser superada pelo desenvolvimento da inteligência humana, da capacidade cultural do homem e da cultura humana em geral. Quando nós falamos de desenvolvimento da inteligência humana, muita gente pergunta: “Mas, já antes de Jesus não houve certos povos, como, por exemplo, os gregos na Antiguidade, que revelaram um grande desenvolvimento intelectual?” Sim, mas foram povos que nós podemos chamar de balizas no processo da evolução. Povos que lideravam a evolução, que vinham auxiliar a evolução intelectual. Povos que na verdade não pertenciam àquilo que nós chamamos a “humanidade terrena”, povos que vieram de outros mundos no processo de migração espiritual.

Nós sabemos e já vimos aqui, quando tratamos da escala dos mundos 1, que na proporção em que um mundo, como a Terra, por exemplo, vai passar de um grau para outro no seu processo evolutivo, da mesma maneira que um ser humano passa da infância para a adolescência, da adolescência para a mocidade, da mocidade para a madureza. Quando vai passar num nível deste, o mundo vai passar para um plano mais elevado, então acontece o seguinte: nem toda a população desse mundo acompanha... pode acompanhar essa evolução, nem toda ela está apta a avançar de acordo com a evolução necessária daquele mundo. Os elementos que não estão aptos serão afastados deste mundo, serão removidos para outro mundo. Não é um castigo, não é uma consequência negativa, é apenas, o eu que eu costumo chamar, uma providência administrativa. Quer dizer, aqueles espíritos não atingiram o grau de evolução necessário para acompanhar a evolução do mundo em que estão. Como o mundo tem de se elevar e há uma grande quantidade de elementos da população que estão em condições, que já amadureceram suficientemente para este salto no futuro, então é justo que se sacrifique aqueles que avançaram em benefício dos outros que não avançaram? E não se pode deixar os dois juntos, porque um impedirá o avanço do outro. Quer dizer, um passará a falar numa linguagem que o outro não entende. Há uma defasagem cultural que se torna difícil.

Então nesses momentos acontece o seguinte: Aquela população que tem de ser removida para outro mundo, vai para um mundo onde essa população vai (por assim dizer) reiniciar o seu aprendizado. Mas nesse mundo para o qual ela é removida, essa população vai levar também uma contribuição, porque já é mais elevada do que aquela população que lá está. Então ela vai levar pra lá uma contribuição para auxiliar a evolução daquele mundo.

Suponhamos o seguinte. Numa escola os alunos de uma 3ª série, por exemplo, de um curso qualquer. Nos exames, não conseguiram passar todos. Uma parte que sobrou não vai passar para a 4ª série, vai continuar na 3ª série. Então, esta parte vai se reunir com os alunos que vêm da 2ª série. Ora, os alunos que vêm da 2ª série não tem a mesma experiência que já têm aqueles que não passaram nos exames. Eles não passaram, não conseguiram subir, mas eles já têm uma experiência maior, porque eles já fizeram a 3ª série durante um ano, mas eles se juntam, se reúnem na mesma classe. Então, aqueles que já fizeram o 3º ano, mas não conseguiram passar, têm mais experiência e, às vezes, mais conhecimentos, mesmo, do que os que vieram da 2ª. E poderão auxiliar aqueles. Acontece isso na passagem do mundo. Não sei se ficou bem explicado isto.

Ora, sendo assim, nós podemos considerar os gregos, os egípcios antigos... Quer dizer, nem os gregos, nem os egípcios antigos existem mais. Os gregos de hoje são outros, os egípcios são outros, os egípcios de hoje são árabes, não são mais egípcios, e os romanos antigos... Todos eles constituíram civilizações que vieram para a Terra como resíduos de civilizações de outros mundos que evoluíram e trouxeram aqui a sua contribuição. A contribuição que eles deram auxiliou, em grande parte, a evolução da Humanidade. Mas essa evolução tinha de prosseguir, como prosseguiu, juntando outras muitas populações, que estavam afastadas da elevação cultural em que se encontravam, por exemplo, gregos e romanos e, principalmente, os gregos.

Nós vemos, por exemplo, na História, a queda do Império Romano, como uma espécie de processo muito importante de difusão da cultura. Por quê? Porque os romanos, primeiro, procuraram difundir a sua cultura, não com a intenção de difundi-la, mas com a intenção de dominar o mundo, conquistando outros países. Mas eles não conseguiam, com isso, levar realmente a sua cultura à profundidade necessária e expandir até regiões mais distantes. Então, houve a invasão bárbara, quer dizer, os bárbaros vieram (por assim dizer) impulsionados por um processo histórico, eles vieram beber a cultura romana na própria Roma. Ao dominarem Roma, aconteceu pra eles o que aconteceu com os romanos quando dominaram a Grécia. Eles dominaram a Grécia, mas foram vencidos pela cultura grega que era superior à deles. Com isto os romanos também deram um impulso pra frente, no campo cultural. Assim aconteceu com os bárbaros. Nós podemos ver na História, que a vinda deles para Roma beneficiou-os tremendamente. Eles destruíram o império, praticamente. Aparentemente destruíram toda a cultura romana, mas depois, eles mesmos começaram a reconstruir. E quando nós chegamos ao Renascimento, nós vemos que a cultura grega, a cultura clássica greco-romana, ressurgiu de novo. E ressurgiu dando nova forma às estruturas de nações, de organizações sociais de povos novos que iam surgindo. E construindo um mundo novo, preparando naturalmente o mundo moderno, do qual nasceria o nosso mundo, o mundo contemporâneo em que nós estamos.

Então vemos essa sequência do desenvolvimento cultural num processo histórico que envolve os povos de um planeta, as várias nações, e que vai dando um resultado magnífico na proporção em que o tempo passa. Aquilo que parecia, às vezes, um mau, por exemplo, a queda do Império Romano... Qualquer romano ilustre, qualquer romano de grande inteligência que assistiu àquela queda, ele sofreu tremendamente. Pra ele, estava desmoronando o mundo. "Acabou! Acabou a civilização, acabou a cultura, agora virou tudo barbárie de novo!" "Vamos cair todos na barbárie, somos todos bárbaros!" No entanto, não foi assim. Quer dizer, a cultura que ali estava acumulada no Império, nas suas obras, inclusive nos seus monumentos, em todas as obras dos gregos, obras artísticas, monumentos, obras escritas, tudo isso, essa cultura, ficou como aquilo que nós chamamos aqui no Brasil de fogo de coivara2. Põe-se esse fogo num campo, o fogo destrói tudo, mas ficam uns certos buracos na terra, onde tem brasas ocultas debaixo das cinzas. De repente assopra um vento e aquele fogo renasce. Então foi o que aconteceu com a cultura grega, cultura greco-romana. Ela foi queimada, destruída pelos povos bárbaros, mas ficaram os elementos necessários para se reacender depois, ela surgiu de novo. Então é neste sentido e desta forma que acontece o desenvolvimento humano, como nós sabemos.

Assim foi no campo da religião. As religiões foram se desenvolvendo através desse processo das revelações divinas de tipo messiânico, as grandes revelações. Moisés, antes de Moisés nós tivemos as revelações do passado, as revelações dos indianos com Viasa; no Egito, Hermes, de Trimegisto; tivemos Zoroastro, na Pérsia. E assim os vários grandes reveladores do mundo, na Babilônia, em todas as partes do mundo, surgiram os grandes profetas, os grandes Messias que traziam revelações fundamentais. Hoje, quando nós vamos estudar estas revelações fundamentais, nós vemos que existe uma unidade entre elas, uma unidade fundamental, elas são fundamentais justamente por isto. Todas as grandes religiões do mundo concordam nos seus princípios fundamentais. Há diferenças, naturalmente, referentes a tradições, a costumes, a posições do desenvolvimento cultural dos diversos povos, mas no fundo, todas as grandes religiões mostram uma unidade fundamental e indiscutível. E se não fosse assim elas seriam falsas, porque a realidade é uma só. Então elas têm de coincidir nos princípios básicos. Ora, superada essa fase, quando se desenvolveu a cultura humana e, não apenas, a cultura espiritual trazida do espaço através desses elementos, trazida do mundo espiritual, mas a cultura humana, mesmo no seu desenvolvimento, atingiu um ponto em que ela podia nos oferecer condições de nós estudarmos e resolvermos os nossos problemas como criaturas humanas. Nesse momento, é que se tornou possível o advento do Espiritismo.

Então, nós entendemos aquela promessa de Jesus que está lá no Evangelho de João. “Eu vos enviarei o Espírito da Verdade. O Espírito da Verdade virá completar o que eu vos disse, porque muitas coisas eu tenho pra vos dizer, mas não posso dizer agora porque não entenderíeis.” Compreendemos isto bem, o Espiritismo só pôde aparecer naquele momento em que o homem se tornou capaz de compreender principalmente uma coisa que hoje nos parece insignificante, mas que não é. Nos parece a nós, que estamos dentro do Espiritismo, aquilo que nós chamamos o ato mediúnico. O ato mediúnico é aquele ato pelo qual um espírito se apossa de um ser humano para lhe servir de instrumento de comunicação, para ele transmitir uma comunicação, para ele dar uma mensagem, ou para ele manifestar os seus sentimentos de maneira, às vezes, até inferior, quando se trata de um espírito inferior. Mas existe o ato mediúnico, que é este ato de ligação do espírito com uma criatura humana. Este ato não era entendido, não podia ser entendido. Para ser entendido, este ato, era preciso que o homem mudasse a sua mentalidade. As religiões todas do passado consideraram este ato como um fenômeno puramente sobrenatural, não tinha nada que ver com as leis da Natureza. O Espiritismo teria de mostrar que esse fenômeno é natural. Os espíritos eram considerados como criaturas afastadas da Natureza e não submetidas às leis naturais; eles eram submetidos às leis do seu próprio mundo espiritual. Este mundo espiritual era também considerado como inteiramente separado do mundo terreno. Ora, a realidade não é essa! A realidade tinha de ser descoberta pelo homem, mas era preciso que o homem chegasse à maturação intelectual necessária para isso.

Quando nós vemos o milênio da Idade Média, um milênio em que os homens ficaram apegados a um tipo de cristianismo trágico, um tipo de cristianismo profundamente místico e cheio de elementos verdadeiramente trágicos, lembrando as influências da tragédia grega e as influências da escatologia judaica. O judaísmo, com o seu Apocalipse, a sua insistência em problemas do fim do mundo, da liquidação do mundo, essa coisa toda, influindo no cristianismo. Doutro lado, o trágico herdado da cultura grega. Tudo isso influiu, na Idade Média, para que ela realmente nos apresentasse um cristianismo que é um cristianismo trágico, o "cristianismo do crucifixo". Muita gente nos acha muito hereges, porque nós, no Espiritismo, não queremos adotar o crucifixo como o símbolo do cristianismo. Consideramos como o símbolo do cristianismo medieval. Por quê? Porque, para nós, o símbolo verdadeiro do cristianismo não é o crucifixo, não é Jesus pregado na cruz. É a Ressureição, é o momento em que Jesus ressuscita. Este é o verdadeiro símbolo do cristianismo, porque o cristianismo não tem por finalidade nos levar à morte, mas à ressureição. Então, o símbolo de Jesus pregado na cruz é (por assim dizer) um resultado de um traumatismo que ficou no espírito humano, com o fato de se haver cometido um deicídio, a morte de um deus. De se haver crucificado um deus. Então, houve um traumatismo no espírito humano que se transformou na adoração daquele momento preciso em que se cometeu esse crime, quer dizer, o crime ficou sendo repetido na consciência humana.

Ora, isso tinha de ser afastado, mas só poderia ser racionalmente. E, durante a Idade Média toda, nós vemos um processo de desenvolvimento da razão. O homem está saindo da emoção, da pura afetividade, da interpretação emocional da vida e do mundo, e passando para o campo da razão. Por exemplo, há um momento em que aparece na história aquele famoso, famoso filósofo medieval que foi Abelardo 3 . Abelardo um sacerdote, todo mundo se lembra dele por causa da história Abelardo e Heloísa. Ora, Abelardo foi praticamente um antecessor de Descartes 4, e Descartes como nós sabemos foi o filósofo da razão. Então Abelardo preparou, durante a Idade Média, o caminho de Descartes. Muito curioso, esse processo que mostra a sequência das coisas. Diz O Livro dos Espíritos, “tudo se encadeia no Universo”, tudo, e nós vemos que, na História, esse encadeamento é bastante preciso.

Abelardo escreveu um livro que ficou famoso chamado Sic et Non. “Sim e Não”. Neste livro, ele fazia uma crítica tremenda da posição dos grandes padres da Igreja. Uns diziam “sim” em coisas que outros diziam “não”. Então, ele perguntava: onde estaria a verdade? O estudo deste livro levou Abelardo a sofrer muito, porque ele foi submetido a processos canônicos, submetido a julgamento da Igreja, essa coisa toda. Mas esse livro foi um livro de importância fundamental, porque preparou o desenvolvimento da razão. E durante toda a Idade Média – toda não, do meio da Idade Média para o fim – nós encontramos uma sequência de debates profundos em termos dos problemas da religião. Havia numerosas discordâncias. Muita gente encara a Idade Média como uma idade monolítica, uma idade em que a ideia dos homens era toda a mesma, estava todo mundo centralizado dentro do cristianismo daquele tipo medieval. Mas não é verdade. Quando nós vamos estudar mais profundamente, nós vemos a enormidade de divergências que surgiram ali. Mas a mais importante de todas foi a de Abelardo, porque Abelardo rasgou o manto do dogmatismo e despertou o problema da razão, impôs o problema da razão. Ele pagou muito caro. Abelardo pagou muito caro essa audácia. Mas, assim mesmo, a contribuição dele foi espantosa, foi maravilhosa.

Logo no Renascimento, surge Descartes. E Descartes era precisamente aquele para quem Abelardo havia preparado o caminho. E é curioso notar que Descartes, como já eu disse aqui, certa vez, ele se apresenta como uma espécie de médium do Espírito da Verdade. Descartes dizia que ele era inspirado pelo Espírito da Verdade. Ele teve três sonhos, três sonhos que determinaram toda a sua orientação filosófica. Esses sonhos, diz ele, lhe foram dados pelo Espírito da Verdade. O Espírito da Verdade despertava nele a necessidade de modificar completamente a ciência, a cultura do tempo e preparar uma nova cultura.

Ora, nós sabemos que Descartes foi aluno dos jesuítas, no colégio de La Flèche, na França. A formação dele foi jesuítica. Mas quando saiu do colégio (o importante em Descartes é isso), ele começou a dizer assim: “Tá muito bem, todo mundo ensinou isto, aquilo, mais aquilo, mais aquilo e eu aprendi. Mas estes professores que me ensinaram isso, aprenderam isso de outros. Os outros aprenderam de outros e assim por diante. E quem disse que isso é verdade?” Aí, veja o salto no campo da razão. “Quem disse que isso é verdade? Eu tenho de verificar se isso é verdade. Eu vou verificar.” E ele então começou a verificar e produziu a grande revolução filosófica que realmente o pôs na posição de pai de toda a cultura moderna. Ele revolucionou o mundo, transformou-o, enfrentou, inclusive, o problema perigosíssimo do poder da Igreja no tempo. Mas conseguiu realmente abrir um caminho novo para o pensamento.

Ora, ele é praticamente um precursor do Espiritismo, não só pela sua relação com o Espírito da Verdade, como também pela sua colocação do problema da alma e do corpo. Então diz ele: “Na verdade eu não posso saber se eu existo, se eu me ativer apenas ao meu condicionamento sensorial, aos órgãos de percepção do meu corpo. Por exemplo, eu vejo pelos olhos, eu ouço pelos ouvidos, eu percebo pelo tato, eu gosto pela língua, pelo elemento gustativo. Tudo isto são sensações do meu corpo. Mas são reais essas sensações?” Ele diz: “Eu olho na Lua, a Lua está nascendo no horizonte. Ela é enorme, depois, ela caminha pelo céu, ela vai diminuindo, ficando pequena. No entanto, a Lua é sempre do mesmo tamanho. Os meus sentidos me enganam. Eu vou indo por uma estrada a cavalo, ou numa caleche, ou coisa semelhante, e dou uma volta na estrada em torno de uma cidade e vejo as duas torres da igreja virarem uma em redor da outra. É mentira, elas não estão virando! É uma sensação mentirosa que eu tenho.” E assim, ele analisa várias sensações e diz: “As sensações nos enganam, os sentidos nos enganam. Então, como eu posso saber que realmente eu existo?” Você vê que ele partiu do problema fundamental: Como eu posso saber que eu existo? E ele chegou à conclusão de que ele só existia pelo pensamento. Aí, ele chega àquela conclusão conhecida: “Penso, logo existo”. Se eu penso eu existo, o meu pensamento me dá prova da minha existência. Quer dizer então, ele chegando a este ponto, ele disse assim: “nós temos corpo e temos alma, isso está certo, isso é verdade, nós temos corpo e temos alma. Mas é preciso não confundir a alma com o corpo.” O nosso problema fundamental é este, é não fazer a confusão entre alma e corpo. Os homens confundem isso tremendamente até hoje, apesar de toda a lição cartesiana, vieram confundindo.

Ora, então, neste ponto também Descartes era um precursor do Espiritismo. No tocante aos seus sonhos, seus sonhos foram sonhos proféticos. Sonhos que prepararam inclusive o seu avanço no caminho da Filosofia, prepararam o seu trabalho, indicaram a ele os rumos a seguir. São sonhos não só proféticos, como sonhos orientadores. De fato, o Espírito da Verdade o orientou, através desses sonhos. A sua ligação com o Espírito da Verdade se confirma através desses sonhos. Os sonhos que lhe deram a necessidade de escrever O Discurso do Método, as Meditações, e avançar no campo da investigação filosófica para renovar a cultura do mundo, que ele de fato renovou.

Assim, no Espiritismo, nós vamos encontrar o complemento desta posição de Descartes. Quando Kardec se defronta com os fenômenos espíritas, ele vê que ele está diante de um momento novo na história do pensamento humano. É um momento em que nós temos a possibilidade de estabelecer uma ligação entre dois mundos, que até então estavam separados, não obstante um influenciar o outro continuamente. Separados pelo quê? Pela ignorância do homem. Porque os espíritos sempre atuaram, sempre agiram, sempre se serviram de médiuns, sempre se manifestaram.

Mas os homens, ou consideravam os espíritos como anjos, ou como demônios. Se o espírito era mau, era um satanás ou era um assessor de satanás que ali estava. Se o espírito era bom, era um anjo, era um enviado de Deus que ali vinha, ou era um santo que se manifestava, uma entidade espiritual santificada pela Igreja. Ora, então não havia a possibilidade de um contato real entre os dois mundos, porque os espíritos eram simplesmente repelidos como satânicos ou eram adorados como anjos, santos, entidades divinas, quando o necessário era a relação humana entre os dois planos, porque os espíritos são criaturas humanas como nós. E muitos deles têm muita necessidade de colaborar conosco em nossos trabalhos, nos auxiliar, nos dar a sua contribuição. E ao mesmo tempo precisam da nossa ajuda aqui na Terra para que também esta comunicação entre os dois mundos vá se ampliando, porque quanto mais se ampliar essa comunicação, mais fácil se tornará o auxílio de um lado ao outro. E a possibilidade de afastamento das entidades perturbadoras, dos elementos que realmente se ligam a entidades humanas de maneira negativa. Tudo isto, de maneira racional, só poderia ser feito dentro do Espiritismo. Por quê? Porque o Espiritismo teria de eliminar esses resíduos mágicos do passado que determinavam a posição misteriosa das religiões em face destes problemas.

E isso o Espiritismo fez, mas fez lentamente. Começando, por exemplo, com a observação de Kardec dos fenômenos, o estudo de Kardec sobre os fenômenos, a pesquisa que Kardec realizou intensivamente. E, junto com ele, aqueles que foram se agregando a ele para o trabalho, para a pesquisa. Depois, a pesquisa dos cientistas que Kardec provocou, porque foi o trabalho de Kardec que despertou os cientistas para o problema. Então, o aparecimento das várias ciências que foram surgindo pra tratar dos fenômenos misteriosos, os fenômenos que hoje chamamos de paranormais. Tudo isto foi progressivamente se verificando. Então quando Kardec escreveu O Livro dos Espíritos (e escreveu como sabemos através de um trabalho perfeitamente conjugado), Kardec fazia perguntas, os espíritos respondiam. Kardec analisava as perguntas, discutia com os espíritos. Coisas que ele não aceitava, os espíritos demonstravam que existiam ou mandavam ele pesquisar. "Para isso existe a pesquisa, você não gosta de pesquisa? Vá pesquisar e ver se nós estamos falando a verdade ou não." Quer dizer, Kardec ia tirar a verdade do que o Espiritismo ensinava através da pesquisa, ele ia atingir a verdade através da pesquisa. Assim nós vemos que foi um trabalho conjugado e intensivo entre Kardec, seus colaboradores na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e os espíritos. De um lado, os homens e, de outro lado, os espíritos. Isto foi o que levou Sir Oliver Lodge 5, o grande químico e físico inglês, a dizer o seguinte: que o Espiritismo é uma espécie de túnel que está sendo construído entre dois países. Diz ele: existe uma planície em que nós temos um país, depois uma cadeia de montanhas e, do lado de lá, existe um outro país. Aqui é o país dos homens, do lado de lá é o país dos espíritos. Para ligá-los, nós temos de fazer um túnel, e diz esse túnel foi o Espiritismo que começou a fazer, começou a furar do lado de cá. Mas os espíritos começaram a furar do lado de lá. É como dizer: “no momento em que as duas equipes se encontrarem a ligação estará completa”. É uma imagem muito interessante do que se passa no campo da revelação espírita.

***

As revelações pessoais e locais de que nós já falamos aqui, feitas pelos grandes messias e profetas do passado, elas decorriam de uma necessidade de didatismo, de ensino de tipo primário, o indivíduo ensinando e os outros aceitando e obedecendo, e aprendendo. Mas quando chegou a época de Kardec, na época do Espiritismo, a coisa mudou. Nós passamos ao ensino de tipo universitário. O professor colaborando com os alunos, os alunos com o professor, a pesquisa realizada por uns e por outros. Quer dizer, a busca da verdade sendo feita numa conjugação de homens e espíritos. Então, os dois mundos se encontraram nesse momento, se fundiram, e o conhecimento foi surgindo da experiência e da pesquisa. Então diz Kardec: "Daqui por diante não pode haver, não há outra revelação, porque esta revelação, a revelação espírita, descobriu para nós qual é a fonte da revelação, qual é a origem da revelação e qual é o mecanismo da revelação. Mostrou que a revelação não é nada mais do que o seguinte – um indivíduo que sabe, ensinando aqueles que não sabem. Mas que este processo se passa de maneira natural entre as criaturas humanas desde que o mundo existe."

Quer dizer, em cada cultura, em cada processo de educação, nós temos um professor como revelador e os alunos, como aqueles que recebem a revelação. Quando o Espiritismo pode provar que era isto, a revelação, ele colocou a mediunidade, que é o instrumento da revelação, a serviço normal do homem. Então agora não precisamos que venha nenhum grande profeta, nenhum grande messias dizer “eu venho vos anunciar a verdade”. A verdade está aí fluindo, através da revelação mediúnica. Médiuns em todas as partes do mundo recebem os espíritos, transmitem comunicações, podem ser interpelados e respondem. Os espíritos respondem através deles. E os esclarecimentos vêm vindo continuamente.

Por isso é que nós, sempre que surgir no movimento espírita (como surge em qualquer movimento no mundo, porque o homem ainda está, nesta fase, muito apegado às raízes do passado), surgem indivíduos que dizem “temos agora uma nova revelação, dentro do Espiritismo!” Surge uma revelação nova. Nós todos sabemos que é uma mistificação, porque já passou a era dos messias, dos grandes profetas. A era agora é uma era de trabalho comum. Os homens, todos se unindo e, através da mediunidade, se ligando com os espíritos e recebendo os ensinos que vem de lá. As revelações, portanto, vão fluindo naturalmente através do processo geral da revelação que foi descoberto.

Então é impossível, como diz Kardec, o aparecimento de um novo tipo de revelação, daqueles tipos antigos de revelação, porque aquele não cabe mais no nosso tempo. Há, por exemplo, um homem que foi criado pela Sociedade Teosófica, chama-se Krishnamurti 6, parece que muita gente já o conhece. Agora mesmo a “Revista Planeta” publicou uma edição inteirinha dedicada a ele. “Krishnamurti”: é por causa do deus Krishna, o deus indiano Krishna, que deram a ele esse nome. Bom, Krishnamurti cresceu na casta dos brâmanes, uma das castas exponenciais, a casta principal da Índia, a mais elevada. E aí desenvolveu a sua... foi desenvolvendo inicialmente a sua cultura, a sua inteligência, revelou logo grande inteligência e a Sociedade Teosófica descobriu esse menino – ele era um menino ainda! E Annie Besant 7, que era, na ocasião, presidente da Sociedade Teosófica, teve uma revelação, segundo ela disse, de que esse menino seria o novo instrutor do mundo. Vejam bem, um novo instrutor do mundo! Quer dizer, já estamos no plano das revelações antigas. Vem um instrutor do mundo, vem um outro “cristo” aí, de acordo com a teoria indiana, porque a Teosofia se baseia nas doutrinas indianas. A teoria indiana de que o Buda, o Cristo, que para ele são figuras semelhantes, ele se manifesta na Terra de tempos em tempos, de acordo com a necessidade da evolução humana, vindo numa encarnação especial para fazer uma nova revelação. Para o Espiritismo, essa fase está superada, mas para eles não. Então Krishnamurti seria o novo instrutor do mundo.

Annie Besant pediu aos pais de Krishnamurti que lhe confiassem o menino – aliás, ele e um irmão que morreu cedo, não continuou. Krishnamurti apenas é o que ficou. Os dois eram muito inteligentes, muito humildes, mas Krishnamurti era um instrutor. Ele foi criado dentro da Sociedade Teosófica, recebendo lições dos teósofos, aprendeu bem teosofia e, depois, foi enviado para a Inglaterra, onde fez cursos superiores, desenvolveu bem a sua inteligência. E então fundaram, quando ele tinha dezoito anos, os teósofos fundaram uma coisa chamada a Ordem da Estrela. A Ordem da Estrela seria uma ordem para ajudar o instrutor do mundo, Krishnamurti a instruir o mundo inteiro. Então, essa Ordem da Estrela ia ajudar o instrutor do mundo. Mas Krishnamurti passou por várias experiências, inclusive perdeu o irmão, o irmão morreu cedo. Ele tinha grande ligação com esse irmão, grande afinidade. Ele sofreu muito com isso. E de repente, esse menino mudou de ideia! Não aceitou mais os ensinamentos dos teósofos e promoveu uma reunião da chamada Ordem da Estrela. E disse para todos eles lá, todos os elementos da Ordem da Estrela: “Vocês todos me consideram um mestre, um instrutor do mundo. Vocês todos estão querendo me seguir, mas eu não quero que ninguém me siga, eu não sou mestre de ninguém, eu não quero ser mestre de coisa alguma, eu quero ser apenas um companheiro daqueles que quiserem buscar a verdade”. E rompeu com a Ordem da Estrela, acabou com a Ordem da Estrela. Quer dizer, então ele ficou sendo assim um indivíduo solitário, não pertencia mais à Sociedade Teosófica, rompeu com tudo aquilo e continuou a fazer as suas conferências.

Conferências muito interessantes em que ele expõe as suas ideias, às vezes muito elevadas e muito bonitas, às vezes um tanto contraditórias e de difícil de comunicação, mas revelando ser realmente uma entidade espiritual elevada. Entretanto, diante da divulgação das suas mensagens, hoje ele está com cerca de setenta anos, setenta anos de trabalho profundo, pregando, ensinando por toda parte. Amparado por grandes figuras de pessoas ricas que deram a ele palácios e coisas pra ele pregar, não pra ele usar pra si próprio, porque ele não tem interesse nenhum nisso, mas para ele fazer suas pregações, dar as suas lições. Mas de tudo isso, o que resultou para o mundo? Resultou que existe uma coisa chamada “Sociedade Cultural Krishnamurti”. Essa sociedade existe em todas as partes do mundo. Os seguidores de Krishnamurti fundaram essa sociedade para estudar os seus livros. Estudam os seus livros que, na verdade, não são livros, ele não escreve livros. Só escreveu um livrinho no começo. O resto são palestras que ele faz e gravam, escrevem e publicam. Então, estudam o pensamento de Krishnamurti e esse pensamento de Krishnamurti se tornou, na verdade, incomunicável para a maioria das pessoas. Porque ele fala numa maneira tão sutil, ele coloca os problemas de maneira, às vezes tão vaga, tão imprecisa, que para ele devem ser certas, a maneira deve ser certa, exata, mas para os que ouvem não são. E a maioria do povo, a maioria das criaturas não consegue entender.

No Espiritismo, nós temos muitas pessoas que disseram: “olha eu descobri agora Krishnamurti, a revelação dele”. E ele não disse que é revelação, ele mesmo não disse, mas essa turma diz: “a revelação dele”. “Então eu não vou mais seguir o Espiritismo, vou ficar com Krishnamurti, porque ele é muito mais amplo, muito mais amplo.” E começam a estudar Krishnamurti.

Nós tivemos já vários casos conosco, de indivíduos que chegam aqui e que vieram, até conhecidos nossos, de famílias amigas, que precisam ser trazidos pra cá pra ir pondo os pés no chão através do Espiritismo, porque estão lá na Lua [riso] com o negócio do pensamento de Krishnamurti que não conseguem apreender, porque é difícil mesmo. Então quer dizer, esse novo profeta, esse novo messias que seria, segundo a Sociedade Teosófica, um “novo cristo”, que vinha trazer uma nova situação para a Terra, uma nova revelação, ele mesmo acabou se declarando que ele não é nada disso e que ele não tinha essa intenção.

Quer dizer, não há mais necessidade disso, a posição espírita é a posição do desenvolvimento das pesquisas, do trabalho, da compreensão através da experimentação mediúnica, do trabalho mediúnico e do estudo da Doutrina que está codificada nos livros de Allan Kardec. Como diz Kardec, esses livros não são absolutos, não pretendem ser nenhuma bíblia. São livros que colocam problemas e problemas que têm de ser desenvolvidos daqui por diante. Mas desenvolvidos no plano cultural, no plano do estudo, não no plano de chamar um espírito para vir explicar, como no caso de Roustaing 8. Ele diz: “Bom, eu quero explicação da posição do Cristo no mundo, eu não aceito esta explicação que está aí no Livro dos Espíritos, acho isso muito banal. O Cristo aí ficou muito humano, não pode ser, o Cristo tem que ser divino.” Então ele chamou lá os espíritos de João Batista, de Moisés, dos evangelistas, chamou todos esses espíritas pra virem, através de uma médium, dar a ele explicação. O resultado foi uma grossa mistificação, que aí está no meio espírita. Não é assim que se tem de verificar. Tem de verificar com a nossa razão, com o nosso entendimento, com os elementos culturais que nós temos para examinar as coisas. Através do estudo é que nós temos de fazer isto, então, nós vamos progredir.

Mas, vemos então como há um progresso no desenvolvimento da cultura e esse progresso, no Espiritismo, também é assim. Quando Kardec publicou O Livro dos Espíritos, os espíritos disseram a ele: “Muitas das coisas que nós demos a você não devem ser divulgadas nessa primeira edição.” E explicaram a ele que ele devia ir fazendo, organizando o livro de acordo com as intuições que ele fosse recebendo. Então, muita coisa ele deixou de lado, não saiu na primeira edição do livro.

À segunda edição do livro, os Espíritos autorizaram: “Pode incluir aquelas coisas que não eram para sair.” Então incluiu, mas, assim mesmo, explicaram a ele: “ainda tem mais coisas que virão no futuro, porque no momento não se pode dizer”. Então, nós vemos, só para dar um exemplo concreto, nós vemos, por exemplo, no Livro dos Espíritos, o problema da origem do homem. O problema da origem do homem está colocado ali bem claramente. O homem, como todas as coisas, provém dos dois elementos fundamentais do Universo que são o princípio inteligente e o princípio material. O princípio inteligente é o espírito, o princípio material é a matéria. O espírito no sentido geral, como matéria no sentido geral. Ora, então todas as coisas provém disso, inclusive o homem, porque tudo se encadeia no Universo, é uma sequência evolutiva que vai chegando até o homem.

Mas quando se pergunta no Livro dos Espíritos, num certo trecho lá, se pergunta pela origem do homem, se o homem veio do animal ou não, Kardec se mostra neutro. Ele diz: “há duas teorias, uma que diz que sim e outra que diz que não, isso é um problema a ser esclarecido futuramente”. Mas quando nós investigamos O Livro dos Espíritos, nós vemos que já está esclarecido lá dentro. Só que está esclarecido num sentido de colocação filosófica do problema, sem a declaração precisa assim: “o homem vem dos reinos inferiores da Criação”. Só depois é que vai esclarecer isto. Este problema era tão difícil de se tratar, na época havia tanta barreira, tanta dificuldade para que ele fosse esclarecido, que Kardec só chegou a esclarecê-lo bem no último livro da Codificação, que é A Gênese. Lá na Gênese, ele dá o esclarecimento total e decisivo do assunto, através, aliás, de uma comunicação recebida psicograficamente pelo astrônomo Camille Flammarion 9. Então ele deu ali a decisão do assunto. A comunicação foi de Galileu 10, do espírito de Galileu, e Kardec aceitou, endossou aquilo e mandou incluir no Livro dos Espíritos.

Mas assim existem numerosos outros problemas. Então é necessário, quando nós estudamos a Doutrina, pegar, por exemplo O Livro dos Espíritos, lermos lentamente e vamos nos informando do que o livro nos ensina. Mas não esquecer que este livro tem desenvolvimentos que vão aparecer no Livro dos Médiuns, daqueles mesmos problemas. Que vão aparecer no Evangelho Segundo o Espiritismo, que vão aparecer no Céu e o Inferno, e que vão aparecer nem A Gênese.

Então, para se fazer um estudo proveitoso nós temos, a cada tema que nós lemos, a cada assunto, procurar as suas conotações nas outras obras. Isso se procura pelo índice. Vê o assunto, estabelece a relação e vai ver o que diz lá. Esta sequência é que vai nos dando a ideia global, a visão global da Doutrina. Então nós podemos compreender a Doutrina em maior profundidade, penetrar nela de maneira mais proveitosa. Examinando a Codificação como uma obra inteiriça, porque ela se liga. Cada livro corresponde a um passo avante na compreensão do Espiritismo, até chegar à Gênese. Mas quando chegar à Gênese parou o trabalho de Kardec. Agora como disse o Espírito da Verdade, como disse Kardec, o trabalho irá prosseguir através das novas gerações, de novas criaturas que surgem, capazes de prosseguir e desenvolver esse trabalho.

Mas é preciso sempre considerar que existe um método para esse trabalho. Hoje, como já no próprio tempo de Kardec, logo depois da morte dele, apareceram os profetas lá, que queriam modificar princípios da Doutrina. E hoje eles estão aparecendo.

Então a alegação dessa gente é o seguinte: “O próprio Kardec disse que o Espiritismo é evolutivo, que ele evolui sempre, então, como é que não querem aceitar as novidades que estão surgindo?” Mas quais são as novidades? “As novidades são dadas por tais e tais livros, e por tais revelações de médiuns...” Bom, nós vamos reunir tudo isso e submeter ao método de Kardec. Kardec estabeleceu um método, esse método foi válido no seu tempo, esse método é válido até hoje, é o método de controle das comunicações mediúnicas. Temos de examinar a comunicação dentro da lógica, dentro daquilo que podemos chamar “o nível cultural da época em que nós estamos”, das verdades confirmadas pela ciência na sua pesquisa. Temos que confrontar tudo isto sempre dentro do bom senso e confrontar com os princípios gerais da Codificação. Ora, quando nós vamos confrontar isto, nós vemos que a maior parte dessas pretensas superações da Doutrina Espírita que vêm vindo aí, desses novos aspectos, a maioria deles estão fora do bom senso, da lógica, fora daquilo que nós chamamos “o nível cultural do nosso tempo”, estão abaixo desse nível ou pretendem estar acima e não conseguem ultrapassar. Estão fora de todas as possibilidades de demonstração e de verificação. Então diz Kardec: as utopias podem ser muito bonitas, nós podemos admirar as utopias, mas não devemos adotá-las como verdades enquanto elas não se realizarem. A utopia é um sonho, este sonho pode se realizar e pode não se realizar.

Ora, então dizia Kardec, deixem que as utopias se realizem primeiro, depois vamos integrá-las na Doutrina. Toda vez que uma verdade nova aparecer, uma verdade que de fato seja confirmada pela pesquisa, pela observação, pelo bom senso, pela lógica... Toda vez que isto aparecer, diz Kardec, não temos, não devemos ter nenhuma dificuldade em juntar este acréscimo, este dado novo, ao esclarecimento que a Doutrina Espírita nos oferece. Mas é preciso ver se este dado é válido. Se não for válido, não podemos juntar.

Quer dizer, isto é o que tem dado uma grande confusão no meio espírita, a falta de compreensão deste problema. O Espiritismo evolui, mas como tudo, esta evolução é controlada. Assim como a ciência se desenvolve, mas a ciência não pode estar aceitando todas as utopias que nascem na cabeça de certos cientistas malucos. Existem cientistas malucos também, cientistas que querem passar além dos limites. Então, eles formulam teorias absurdas e querem impor aquelas teorias como verdades. A ciência não aceita. Então, nós estamos vendo sempre as brigas que surgem no campo científico, porque um cientista formulou uma teoria que não tem cabimento e ele meteu na cabeça (por assim dizer) que aquilo está certo e que ele tem de provar. Os outros dizem “prove”. E ficam esperando a prova. E a prova não vem. Então, ele se desespera porque não consegue a prova e parte, como se costuma dizer, “parte para a ignorância”. [Risos.] Diz: “Não! É isso mesmo e está acabado, porque é assim.” Quer dizer então, esse problema não é só do Espiritismo. É da ciência, é das religiões, é de todos os campos do conhecimento. Mas no Espiritismo, nós precisamos ter o maior cuidado, estudar a Doutrina com critério, com lógica, com bom senso. Kardec disse certa vez: “Espiritismo é uma questão de bom senso”. Bom senso. Quem tiver bom senso penetra nele com facilidade, quem não tiver fica tropeçando nas bobagens que vão surgindo. Agora, penetrando na estrutura da Doutrina, então a gente absorve a Doutrina e aprende.

Perdão se eu falei demais, mas o assunto sempre provoca...

 

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1. Escala dos mundos. Ver O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. III.

2. “Coivara” é uma expressão que remete à prática indígena de atear fogo na mata, porém controlando a sua expansão através de clareiras.

3. Pedro Abelardo (1079-1142). Filósofo, teólogo e lógico francês.

4. René Descartes (1596-1650). Filósofo, físico e matemático francês.

5. Oliver Lodge (1851-1940). Físico e escritor francês.

6. Jiddu Krishnamurti (1895-1986). Filósofo, orador e educador indiano.

7. Annie Besant (1847-1933). Escritora e teósofa inglesa.

8. Jean-Baptiste Roustaing (1805-1879). Advogado francês.

9. Camille Flammarion (1842-1925). Astrônomo, pesquisador espírita francês.

10. Galileu Galilei (1564-1642). Físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano.

 

A princípio, era uma reunião familiar de estudos e mediunidade, que ocorria semanalmente na casa de Virgínia e Herculano Pires. Com o tempo, chegaram os amigos e se juntaram ao grupo.

Quando a família se mudou para a residência da Rua Doutor Bacelar, o imóvel contava com uma garagem que não era utilizada. Conforme o trabalho de Herculano se tornava mais conhecido, aumentava o número de pessoas que vinham procurá-lo, em busca de orientação espírita. Para melhor atender a essa demanda e, ao mesmo tempo, constituir um novo espaço de divulgação espírita, em 1972, o casal deu início às Palestras na Garagem, que eram semanais e dirigidas por Herculano.

Muitas delas foram carinhosamente registradas em fitas cassete pela tia Lourdes (Lourdes Anhaia Ferraz) e pelo Sr. Miguel Grisolia. Agora você pode ler as transcrições dessas gravações, fruto de um trabalho detalhado e paciente de Antonio Leite, da equipe de colaboradores da Fundação. 

SOBRE A QUALIDADE DOS ÁUDIOS: As gravações originais apresentam níveis de qualidade variáveis. Alguns trechos estão quase completamente corrompidos. A linguagem coloquial está mantida nas transcrições. A numeração não segue a ordem cronológica, mas a criação de um índice das mesmas.

 

 

 

 

Palestra 4: Caridade - a finalidade da Assistência Social no Espiritismo

  

Se nós não tivermos caridade, não adianta tudo que falamos, tudo que fazemos. O que quer dizer, eu seria “como o sino que tange”. O sino que tange: simplesmente som, mas não daria uma contribuição, não daria um apoio, um amparo, uma assistência aos outros, o que a caridade me leva a dar. Então a caridade é a prática do amor. O amor em si se transforma em caridade no momento em que ele entra na prática, na atividade social, ele se estende aos outros.

Mas há vários aspectos da caridade. Por exemplo, há um aspecto que é muito condenado, principalmente pelas pessoas que pretendem as transformações sociais do mundo pela violência ou por atividades políticas, puramente políticas. É a esmola. Todo mundo diz: "a esmola é negativa, ela é prejudicial." A esmola faz com que os indivíduos pensem que eles estão comprando a entrada no Reino do Céu. Eles dão dinheiro para o pobre, para conseguir um “lugarzinho no céu”. Entretanto, quando nós analisamos bem, nós vemos coisas muito interessantes neste processo. Eu vou contar apenas uma passagem da minha vida profissional de jornalista, que me deu uma ideia bem nítida do que é o problema da esmola.

Um grande comerciante queria fazer propaganda num jornal através de uma vasta reportagem. Ele estava conversando comigo, era meu amigo. Ele disse:

“– Olha eu queria fazer uma reportagem e queria que você me arranjasse um repórter capaz de fazer um trabalho muito bem feito, sobre o seguinte: não é sobre a minha, sobre as minhas casas comerciais. Não. Eu quero dar uma grande doação a uma instituição de caridade, uma grande doação, mas quero que a imprensa publique isso, amplamente. Quero dar a mais ampla divulgação.”

“ – Está bem, eu vou falar com um amigo aí que talvez possa atender você, vem aí e você conversa com ele.”

E aí eu fiquei pensando naquilo. Que coisa, né? O que que eu vou dizer pra esse homem. Ele não entende do assunto. E ele quer fazer propaganda da caridade dele. Mas aí me ocorreu o seguinte: é melhor que ele dê, fazendo a propaganda, do que não dar nada. Não é isso? [risos] É melhor que ele dê. Porque, ele dando, ele vai aprender a dar, não é? Talvez isso vá estimular, vá despertar, nele, um sentimento de dar, de oferecer aos outros. Porque ele, até agora, só puxou pra si, pra si, unicamente pra si. Aquela ambição, aquele desejo de ficar rico, cada vez mais rico, mais rico, mais rico, e não tinha tempo de pensar em dar alguma coisa. Agora ele já está com as burras abarrotadas e não tem mais, então ele já está pensando em dar alguma coisa. Quem sabe, se é o momento que está soando pra ele pra isso. (Por sinal que ele não fez isso. Nem fez a doação, nem fez nada. Em todo caso ele manifestou aquele desejo.)

Então, a gente pode pensar o seguinte: o indivíduo que vai indo pela rua e, de repente, um pobre, uma criatura necessitada ou não, – pouco importa! – estende a mão e pede uma esmola. Ele está acostumado a não dar, a recusar a esmola. Mas, de repente, por um impulso inesperado, ele enfia a mão no bolso e tira um cruzeirinho e dá pra pessoa. Aquilo pode parecer que não tem sentido nenhum, mas às vezes ali foi o início. Depois de dar aquele cruzeirinho, ele amanhã dará mais outro, depois outro, depois outro. E a esmola, a esmola que parece tão negativa, vai levando ele para o campo da caridade, né? Ele vai se abrindo. Tudo tem um começo, tudo tem de ter um começo.

Às vezes, é através da esmola que o indivíduo aprende a dar, aprende a se abrir. Assim, a esmola, que poderia ser o aspecto mais negativo da caridade, me parece que é um aspecto bastante positivo, quando nós encaramos assim. E quantas vezes isso, na minha experiência espírita, eu tive oportunidade de observar. Quantas vezes o indivíduo que se aproximava do espiritismo e que estava acostumado a negar tudo aos outros e não dar nada a ninguém, terminava realmente se transformando em pessoa caridosa. Porque foram aprendendo lentamente, com os outros, a ver e a sentir os resultados da caridade, né? Então, o indivíduo dá, auxilia e, quando vê que aquele auxílio realmente está beneficiando os outros, ele, por mais endurecido que ele seja, mais fechado no seu egoísmo, ele sente sempre um certo prazer. Às vezes, até vaidoso. “Graças a mim é que o sujeito está melhorando. Graças a mim.”

Não é graças a ele, é graças a Deus, né? Mas, em todo caso, ele diz: “Graças a mim, ele saiu da situação precária em que estava e melhorou.” Mas até mesmo aquele sentimento vaidoso dele, já é um sinal de que ele está se abrindo, de que ele está aprendendo a dar, nem que seja por vaidade. Ele está aprendendo. E, na proporção em que ele vai dando, vai se distribuindo, ele vai se abrindo...

Quer dizer, a caridade representa uma espécie de dinâmica da evolução espiritual. Um processo dinâmico em que o indivíduo que está fechado em si mesmo, ele é egoísta, ele está fechado no seu Ego, ele não sai de dentro de si, o mundo para ele é ele mesmo, este indivíduo, quando começa a entrar no campo da caridade, ele vai se abrindo para os outros. Então os outros passam a ter para ele uma outra significação. Ele começa a compreender que os outros realmente têm necessidade dele e que ele, podendo auxiliar, isto para ele representa alguma coisa importante. Na proporção em que ele vai se abrindo, ele vai também reconhecendo, depois, que tudo o que ele faz, no campo da doação em si mesmo, é pequeno, é insignificante. Porque cada indivíduo, por mais que faça, por mais que ele possa fazer, ele só atinge uma mínima, uma insignificante parte das necessidades humanas no mundo. Ele então, por mais rico que ele seja, por mais que ele possa dar, ele vai ver que o que ele faz ainda é uma insignificância. Porque quanto mais ele penetra no campo da caridade, mais vai se abrindo diante dele o panorama das necessidades humanas.

Muitas pessoas que vivem na fartura – e muitas que nasceram mesmo, na fartura – não têm ideia quase nenhuma do que seja o sofrimento humano, o sofrimento das necessidades. Eles pensam mais ou menos assim, como aquele caso de Maria Antonieta, quando o povo na rua pedia pão, gritava por pão. Ela perguntou:

“– Por que eles estão gritando?"

“– Estão querendo pão!"

“– Por quê? Não têm pão?"

“– Não!"

“– Mas, e aí? Dê bolo pra eles.”

Dê bolos. Quer dizer, ela não tinha a menor ideia do que fosse a fome. Ela achou que: “Não estão tendo pão. Por quê? Não tinha pão, então dá o bolo.” E onde é que estava o bolo?

Geralmente é assim. As pessoas não têm essa ideia. Mas, na proporção em que vão trabalhando no campo assistencial, eles vão sentir de perto. Vê um caso concreto aqui, outro ali... Nós somos criaturas que precisamos sempre ver as coisas objetivamente. Não obstante nós sejamos, na verdade, subjetivos, e toda a nossa vida se passa dentro de nós. A nossa vida não é exterior, a nossa vida não é material, é espiritual, é subjetiva. Mas nós gostamos de ver as coisas objetivamente, porque é o objetivo que nos toca na realidade concreta em que estamos. Então, quando o indivíduo pertence, por exemplo, a um trabalho de assistência, ele vai assistindo de perto o que acontece na distribuição, por exemplo, como essa distribuição que se faz aqui. É uma distribuição mínima, insignificante para um pequeno bairro. Mas é o que se pode fazer. Cada um tem fazer aquilo que pode, não deve ir muito além, porque não é possível mesmo e se prejudicaria. Mas cada um faz o que pode e deve fazer o melhor que puder. Mas na proporção em que vai fazendo essa distribuição, as pessoas vão sentindo… objetivamente... concretamente, a situação daqueles que necessitam.

O quanto uma pequena contribuição pode realmente valer para uma pequena família, para uma criança muitas vezes, para um adulto mesmo, em estado de necessidade! Quanto se pode fazer de auxílio, de ajuda! E como isso muda, inclusive, a situação mental, íntima das pessoas. Um indivíduo, por exemplo, revoltado. Ele vive na miséria, na dificuldade, trabalha dia e noite, ganha pouco, mal dá para o sustento da família. Ele se considera uma vítima dentro do mundo e uma vítima da humanidade. Para ele, a humanidade é toda exploradora. Mas quando aparecem indivíduos que vão levar a ele uma assistência, gratuitamente e independentemente de qualquer coisa, não obrigando ele a sujeição de espécie alguma, uma doação ampla, livre, sem nenhum compromisso. Então ele começa a perceber que a humanidade não é tão ruim quanto parecia. A humanidade tem alguma coisa de bom, existem pessoas que pensam nos outros, que querem ajudar os outros. E então, isso desperta naquela pessoa revoltada um sentimento já diferente, um sentimento benigno para com os outros, ele vai se modificando intimamente. Assim é que nós entendemos e temos de entender o problema da caridade, no Espiritismo.

Muitos espíritas não compreendem isto. Geralmente a gente ouve críticas assim: “O Espiritismo no Brasil não vai pra frente por duas coisas: a religião e a caridade.” Todo mundo só pensa no espiritismo como religião para se beneficiar através dos espíritos. E se entrega à caridade, como nas religiões salvacionistas, para se salvar individualmente. Ele pensa que, fazendo a caridade, ele está se salvando. Mas na verdade não é isso que se passa no movimento espírita. No movimento espírita, o que tem se passado, o que nós podemos observar, principalmente no Brasil, é qualquer coisa de espantoso. Por exemplo, eu tive oportunidade de acompanhar muita coisa, de ver muita coisa no movimento, porque me tornei espírita muito cedo. Muito moço, de família católica, mas aos 22 de idade, eu me tornei espírita. Então, dali por diante, eu pude acompanhar muita coisa na minha vida que tá hoje em 95 anos mais ou menos, né? [risos da plateia]. Então!

E vi coisas assim: Em Marília, por exemplo, na Alta Paulista. Eu morei lá durante seis anos. Quando cheguei lá, havia uma campanha espírita para a fundação de um hospital. O hospital devia chamar-se “Hospital Deus”. Era mesmo muito engraçado o nome. “Hospital Deus”. E a proposta era de um médico, Dr. Manhãs. Ele queria que pusesse Hospital Deus. E nós tivemos várias reuniões. Eu comecei a participar do grupo. E então, chegamos à conclusão de que o nome mais acertado seria Hospital Espírita de Marília. "Deus" não ficaria bem, porque a nossa homenagem a Deus não tinha sentido nenhum. E Deus, na posição em que ele está no Universo, e a gente dar o nome dele como um hospitalzinho não dava certo! [risos] Então, achamos que não e, no fim, venceu essa tese: Hospital Espírita de Marília.

Mas como fazer esse hospital? Abriu-se um livro chamado Livro de Ouro. O ouro era pouco, mas o nome era esse, Livro de Ouro. E cada um assinava: “Fulano de Tal – mil cruzeiros.” Mas mil cruzeiros era pago em dez ou vinte cruzeiros por mês [risos]. Quer dizer, entrava num crediário, estava pagando aquilo. Eu pensei: “Meu Deus, quando é que vão fazer este hospital? De que jeito vão fazer isso? Eu sei que eu fiquei seis anos em Marília e, quando saí de lá, o hospital já estava funcionando perfeitamente. É, hoje, um dos maiores hospitais espíritas no Estado. Moderníssimo, muito bem organizado. Servido por uma equipe médica extraordinária. E mais, é um hospital que, hoje, representa um centro de pesquisas no Estado de São Paulo, do ponto de vista médico. Porque lá, o Governo do Estado fundou uma Faculdade de Medicina. Existe uma Faculdade de Medicina lá, do Governo. Existe o Hospital Espírita de Marília, que é uma instituição independente dos espíritas. Dos espíritas, independente, quer dizer: como organismo oficial. E a Faculdade de Medicina resolveu juntar-se ao hospital, ligar-se a ele, para o trabalho de pesquisa [risos e comentários].

Então a Faculdade ligou-se ao Hospital com interesse do estudo psiquiátrico, porque o Hospital tem um grande número de internados, de doentes ali, em tratamento permanente. Então é um campo fabuloso para a pesquisa, a pesquisa médica.

Feito o convênio entre os dois, também entrou no convênio a Secretaria de Saúde do Governo do Estado. Com esses três elementos, o Hospital Espírita de Marília, a Faculdade de Medicina de Marília e a Secretaria de Saúde do Governo do Estado, criou-se então o "Centro Integrado de Saúde Mental de Marília". Quer dizer, uma instituição ampla de pesquisa, oficial e que tem, como base, como motivo de aglutinação, de desenvolvimento, o Hospital Espírita de Marília. Esse hospital que nasceu das doaçõezinhas de dez cruzeiros, vinte cruzeiros por mês de cada um.

É claro que, na proporção em que foi se desenvolvendo a campanha do Hospital, foram entrando elementos que deram contribuições muito importantes. Por exemplo, existia em Marília um senhor que se chamava Eurípedes Soares da Rocha. Eurípedes Soares da Rocha foi o fundador de Tupã, junto com o Souza Leão, que foi também um dos fundadores de Marília. Esse homem era espírita, de família espírita. Ele deu todo o material, por exemplo, todos os tijolos, telhas para a construção do Hospital, ele deu do dinheiro dele! Quer dizer, então houve coisas assim, que surgiram depois, mas surgiram em torno do movimento [aqui acontece um pequeno corte].

É nesse sentido, que o Espiritismo procura desenvolver sempre o senso da caridade. Não é no sentido puramente romântico, lírico, de dizer “não, as pessoas devem ser caridosas, isto beneficia a humanidade”. Não é nisso, não. É um problema central do espírito. Porque há problema de descentralização do espírito.

Nós todos somos centralizados no nosso Ego. Nós todos somos egoístas. Nós todos pensamos muito em nós e, pouco, nos outros. Cuidamos muito de nós e pouco dos outros. E justamente por isso é que, então, a caridade exerce uma função verdadeiramente dinâmica de fazer com que o nosso Ego se abra. Com que a nossa mente, o nosso coração, se abram para os outros. E fazendo, provocando esta abertura, a caridade realmente nos tira de uma posição mesquinha, pequenina, e nos leva para uma posição mais ampla, mais vasta em conotação com toda a humanidade.

Foi por isso que Jesus disse, lá no Evangelho, aquela frasezinha dele que eu sempre gosto de citar. “Quem se apega à sua vida perdê-la-á. Mas aqueles que perdem a sua vida por amor a mim, estes a encontrarão”. Que quer dizer isso? Quem se apega à sua vida são aqueles que ficam no seu egoísmo, pensando em si, vivendo para si. Inclusive atraindo mil sofrimentos para si mesmos, porque começam a pensar que sempre é um injustiçado. A pessoa egoísta sempre se considera uma injustiçada, uma perseguida, seja pela falta de sorte, seja pelas doenças, seja por isto ou por aquilo. E nesta centralização, neste fechamento em si mesmo, ela atrai uma porção de coisas más que vem sobre ela. Por quê? Porque o seu pensamento se torna negativo. É uma introversão, é um pensamento que está voltado para si mesmo, que ignora os outros, que ignora o mundo. Ao passo que, na proporção em que o indivíduo abre o seu pensamento, que começa a perceber a humanidade em si, ele não só dá como também recebe. Cada coisa que nós damos aos outros, nós recebemos de volta. Quer dizer, esperamos às vezes multiplicar. [Breve comentário de alguém presente sobre caso do Chuchu de Chico Xavier]. Sempre, sempre há… A gente dá, é um exemplo material, mas realmente é assim.

Então quer dizer, a finalidade da Assistência Social, no Espiritismo, não é apenas a de dar um socorro imediato a certas pessoas que necessitam, mas de dinamizar o processo de espiritualização da humanidade. Estabelecendo uma relação social mais intensa, mais ampla e mais profunda entre as criaturas. Pondo em prática, na realidade, aquele princípio da fraternidade ensinado por Jesus. Fazendo com que todos nos sintamos mais irmanados na realidade social. Tirando da estrutura social o aspecto negativo que ela possui, no sentido de ser o homem, o inimigo do homem; "o homem, o lobo do homem””, o adversário do homem. E dando, a esta estrutura, um sentido novo de “homem irmão do homem”, irmanar as criaturas humanas.

Neste sentido, então, a caridade realiza realmente. É um dos meios de realização dos ideais do Espiritismo. E consequentemente, como diz numa passagem do Evangelho Segundo o Espiritismo, a caridade vai realizar aquilo que o Cristianismo não pôde realizar, em virtude da extensão da tarefa que ele tinha pela frente. E, mesmo porque, no plano do Cristianismo, já estava previsto o momento do advento do Espírito da Verdade, que é o Espiritismo. Aquilo que o Cristianismo teria de realizar, que é afastar do mundo, o egoísmo. Transformar os homens em criaturas altruístas, ou seja, voltadas para os outros. É este o objetivo de todo o trabalho a se pensar no Espiritismo. E é por isso que todo grupo espírita sempre precisa cuidar também dessa parte.

Trecho de I Coríntios 13.

Cruzeiro. Moeda do Brasil nos períodos 1942/1967, 1970/1986 e 1990/1993.

Alta Paulista. Antiga região ferroviária do Estado de São Paulo, incluía cidades como Dracena, Garça, Marília e Tupã, entre outras.

Em Mateus 16:25

Refere-se ao texto “A Lição dos Chuchus”, do livro Lindos Casos de Chico Xavier, de Ramiro Gama, Ed. LAKE.

O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. VI , O Cristo consolador, Instruções dos Espíritos, “Advento do Espírito de Verdade”.

"O homem, o lobo do homem" Refere-se ao pensamento do filósofo Thomas Hobbes (1588-1679), autor de O Leviatã e O Cidadão.

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